Uma tropa de choque da verdade contra as fake news

Ganha corpo em vários países da Europa e da América do Norte a ideia de combater a proliferação de notícias falsas (fake news) por meio da criação de grupos batizados como “Forças da Verdade”, encarregados de determinar o que é verdadeiro e oque é falso na agenda pública de debates.

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Ilustração Pixabay / CC

A ideia surgiu nos Estados Unidos , num artigo do físico espacial e comentarista conservador Neil deGrasse Tyson, colaborador frequente do jornal direitista The Washington Times. O artigo do cientista foi publicado no inicio de agosto e imediatamente provocou críticas de políticos liberais e acadêmicos que qualificaram a proposta de “orwelliana”, numa referência ao escritor George Orwell, autor do livro 1984. O livro mostra como o controle da informação pública gera o totalitarismo.

A polêmica sobre uma organização encarregada de impor uma versão única da verdade está sendo alimentada pelas incertezas geradas pela proliferação das fake news no noticiário da imprensa. É uma das consequências da multiplicação, nas redes sociais da internet, de diversas versões e opiniões sobre um mesmo fato. Isto faz com que as pessoas fiquem confusas e inseguras na hora de tomar uma posição, como no caso de uma campanha eleitoral quando os candidatos apresentam dados, fatos e eventos conforme seus interesses políticos.

Estamos assistindo a emergência do fenômeno da complexidade em nosso quotidiano, quando a diversidade de informações mostra como as coisas já não são tão simples como antes da internet. A realidade que nos cerca e o próprio noticiário da imprensa estão mostrando que não dá mais para dividir tudo apenas entre bons e maus, amigos e inimigos, entre verdades e mentiras.

Há situações intermediárias, que sempre existiram, mas que não podíamos identifica-las por falta de mais detalhes e dados de contexto, já que limitações técnicas e financeiras impediam uma maior produção e circulação de informações. Agora, neste início da era digital, as restrições acabaram e acabamos mergulhados numa avalancha de dados que confunde a nossa maneira de pensar e agir.

A metáfora do copo

A avalancha informativa é irreversível, logo estamos condenados a ter que nos acostumar com as consequências do excesso de notícias. Criar uma força tarefa para decidir o que é verdadeiro ou falso não resolve as incertezas e desorientação porque nega a existência de situações intermediarias entre o bem e o mal, entre a verdade e a falsidade, além de impor uma versão única sobre dados, fatos e eventos que são percebidos de forma diferenciada pelos indivíduos.

Tomando um exemplo: se um copo visto por alguns como meio cheio for classificado por uma força tarefa como verdadeiro, quem olhar o mesmo como, com a mesmo volume de agua e o qualificasse como meio vazio, poderia ser acusado de produzir uma fake news. Trata-se de um claro absurdo, mas é basicamente isto que a proposta do físico Neil Tyson implantará, caso reúna um número suficiente de apoiadores para ser transformada em lei.

A sugestão de uma “força tarefa da verdade” pode tranquilizar as pessoas assustadas com as incertezas geradas pelas fake news e pela avalancha informativa. Mas trata-se de uma alternativa que dificilmente será consensual porque os setores corporativos beneficiados pelo avanço das tecnologias tendem a defender a liberdade de informação porque dependem dela para produzir inovações, hoje o grande motor da economia digital.

O trato dado à informação é hoje um diferencial entre os interesses empresariais e os movimentos políticos. Entre uma cultura baseada na busca de eficiência produtiva e outra apoiada na busca do poder. Na era analógica, ambas as culturas coincidiam na maior parte dos desafios enfrentados por elas, mas agora, na era digital, surgem divergências resultantes da aplicação de lógicas diferentes na hora de lidar com a realidade.

O setor produtivo e a academia buscam diversidade e maior volume de informações para poder desenvolver conhecimentos novos, a base da inovação material e intelectual. Já o setor político mostra-se desconfortável com a avalancha informativa porque ela gera dados e fatos que podem contrariar as versões oficiais.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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