Tragédias abrem espaço para a imprensa local na era digital

A imprensa local tem um papel insubstituível na cobertura de grandes eventos de impacto nacional e internacional como ficou evidenciado agora nos conflitos raciais em Charlottesville (Estados Unidos) e nos trágicos naufrágios ocorridos no Pará e na Bahia, aqui no Brasil. Os jornais locais têm melhores condições de explicar porque estes episódios aconteceram e também como podem ser evitados no futuro porque convivem diariamente com eles, ao contrário dos grandes jornais nacionais e internacionais, cuja função mais valorizada é globalizar a divulgação de eventos .

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Conflitos raciais em Charlotesville / Foto ProPublica

Esta diferença de papeis tem sido ignorada até agora por atitudes equivocadas em ambas as partes. A grande imprensa geralmente assume uma postura olímpica ao cobrir eventos regionais ou municipais porque seus repórteres e correspondentes chegam ao local dos fatos mais preocupados em identificar culpados e em mostrar dramas pessoais. A grande imprensa também desconsidera a imprensa local, partindo do fato de que os jornais, revistas e emissoras de rádio do interior geralmente priorizam os interesses comerciais, financeiros ou eleitorais de seus donos.

O advento da era digital está alterando esta situação ao tornar evidente a necessidade de mudar este antagonismo entre a imprensa nacional e a local na cobertura de grandes eventos, em decorrência da crescente complexidade e diversificação das notícias. Nos conflitos de Charlottesville, por exemplo, o jornalista e escritor Ken Doctor, colaborador do respeitado NiemanLab, cobrou dos jornais locais de Charlottesville, uma investigação sobre as razões concretas que levaram à radicalização racista dos jovens brancos da cidade. Segundo Doctor, só quem conhece a cidade e seus problemas, que convive com o segmento mais jovem da população local é que tem as condições ideais para mostrar ao público nacional e internacional porque o ódio racial explodiu de forma tão violenta nos conflitos recentes.

Atitude similar foi adotada por Jon Snow, o âncora do principal telejornal da TV privada da Inglaterra, que admitiu falhas graves de toda a imprensa britânica na cobertura do incêndio no edifício Grenfell, em junho último, quando 80 pessoas morreram e 70 ficaram feridas. Para Snow, a imprensa do seu país está divorciada da realidade nas cidades, apontando como prova disto o fato das causas e consequências da tragédia em Londres terem sido melhor explicadas por blogs e newsletters publicadas por comunidades locais. Para o veterano jornalista de grandes coberturas faltou conhecimento local aos repórteres e editores responsáveis pelo noticiário sobre a torre Grenfell.

A imprensa local tem ainda um papel mais relevante e único que é o de acompanhar as investigações e cobrar soluções concretas para evitar a repetição de situações similares. A imprensa nacional é forçada a pular de tragédia em tragédia pela própria natureza global de seu campo de atuação. Sempre há algo importante acontecendo num pais imenso como o Brasil e não há espaço suficiente nos jornais, revistas e telejornais nacionais para tratar todos os eventos relevantes em detalhe. Além disso a atenção do público acaba sendo desviada para novas notícias de impacto.

Janela de visibilidade

Os jornais locais, nestas circunstâncias, passam a ter um papel essencial na cobertura sobre as investigações das tragédias , não apenas para punir culpados, mas principalmente na identificação de procedimentos capazes de evitar a repetição dos naufrágios no rio Xingú, Pará, e na ilha de Itaparica, em Salvador. O público local viveu ou testemunhou as tragédias e tende a acompanhar os seus desdobramentos com muito maior interesse que o público nacional. A eficiência e credibilidade que repórteres e editores demonstrarem nesta missão investigadora pode proporcionar uma janela de visibilidade no contexto jornalístico nacional, coisa que até agora lhes era vedada.

Mas esta nova realidade vai incomodar muitos donos de jornais locais, porque, em sua maioria, eles tendem a fugir de questões polêmicas como a investigação de fatos envolvendo empresas ou autoridades municipais e regionais, movidos pelo medo de perder subsídios governamentais ou publicidade privada. É um cacoete antigo onde os jornais locais tendem a olhar mais os seus interesses do que os dos seus leitores, alegando que esta é a única maneira de manter o jornal, revista ou radio.

Apesar disto, eles terão que mudar de conduta porque as prefeituras e governos regionais estão com os cofres vazios. Os empresários locais cobram fidelidade total da imprensa para pagar anúncios impressos ou radiofônicos. A sobrevivência da imprensa local está cada vez mais numa nova relação com os leitores, o que significa priorizar os interesses do público. A mudança é possível como mostram dezenas de experiências feitas por jornais locais nos Estados Unidos e Europa. O problema está na cultura dos empresários e na falta de iniciativas de verificar na nossa realidade municipal e regional os elementos capazes de alavancar novas modalidades de sustentação financeira da grande pequena imprensa.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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