Só o jornalismo salva o jornalismo

O jornalismo enfrenta um triplo desafio neste início da era digital, justo num momento em que a atividade assume uma inédita importância social, econômica e cultural. O jornalismo está ameaçado por setores ideológicos contrários ao livre fluxo de informações, pela crise do modelo de negócios das empresas que comercializam notícias (jornais, revistas, telejornais, agências de notícias e sites noticiosos) e pela falta de resultados imediatos na busca de novas formas de sustentabilidade financeira no jornalismo autônomo.

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A maioria dos profissionais já tem consciência destes dilemas, o que eles ainda não assumiram é a percepção de que a categoria é a única que tem condições de achar respostas adequadas para a atual conjuntura. Repórteres, editores, fotógrafos, cinegrafistas, programadores, designers e comentaristas acumularam ao longo de quase 200 anos uma massa de dados e fatos sobre a produção de notícias, bem como sobre a relação com o público, que nenhuma outra atividade conseguiu acumular.

O problema é que estes conhecimentos estão na forma empírica, ou seja, são dados brutos, onde só uma proporção mínima foi transformada em informações contextualizadas e posteriormente em conhecimentos geradores de inovações na prática jornalística.

O enfrentamento dos desafios colocados diante do jornalismo contemporâneo não deve ser visto como uma tarefa acadêmica, muito pelo contrário. A busca de saídas para os três dilemas mencionados acima é uma responsabilidade prática imediata porque a nossa sobrevivência real como profissionais depende das respostas que a categoria venha a produzir.

As empresas vão continuar demitindo jornalistas porque a crise do modelo de negócios não é algo conjuntural, mas estrutural. Não vai desaparecer só com ajustes ou novas regulamentações. Sem empregos, boa parte dos profissionais terá que aderir à produção autônoma de notícias e informações, uma atividade em que ainda não há segurança de remuneração. E os jornalistas são protagonistas centrais na defesa do livre fluxo de notícias, porque são eles que as produzem. Caso a extrema direita imponha o autoritarismo informativo, ela acabará com a matéria prima do jornalismo e transformará a maioria dos profissionais em publicitários e marqueteiros.

Saudosistas, inseguros e nerds

Na verdade, poderíamos reduzir os três dilemas mencionados no início em apenas um grande desafio: a sobrevivência do jornalismo como atividade voltada para a produção de notícias socialmente relevantes. Existem no momento três categorias diferentes de jornalistas, que apesar de diferentes no que se refere à forma de praticar o jornalismo e de refletir sobre a atual conjuntura, estão ameaçadas de não sobreviver aos traumas da transição para a era digital.

Há uma coexistência, nem sempre harmônica, entre os jornalistas mais experientes, formados integralmente no jornalismo convencional mecânico/industrial, os que começaram no jornalismo impresso e agora trabalham no digital, e os mais jovens cuja cabeça está no online, na nuvem e nas redes virtuais. Todos vivem uma mesma preocupação: a incerteza sobre o futuro da profissão. E todos têm também algo único em comum: a experiência prática de produzir notícias nas mais variadas circunstâncias sócio/político/econômicas, e em diferentes fases tecnológicas.

Esta experiência é um capital cognitivo altamente valorizado num momento em que o estudo da prática se torna a forma mais eficiente de buscar novas teorias capazes de resolver os dilemas da profissão. Cada uma das três categorias de jornalistas que citei acima acumulou e continua acumulando dados e fatos que devidamente organizados e processados podem apontar caminhos futuros para a produção de notícias, independente do que vier a acontecer com as empresas jornalísticas atuais, inclusive as digitais.

Daí a importância de grupos de jornalistas, como por exemplo o grupo de profissionais do extinto Jornal do Brasil, no Whatsapp. Há vários outros, mas é o que me lembro no momento e do qual participo porque também trabalhei no JB no final dos anos 60. Estes grupos podem preencher uma necessidade fundamental neste processo de reunir dados da prática de cada profissional, processá-la e interpretá-la na conjuntura atual, pensando em resultados futuros e concretos. É claro que o saudosismo de uns, as incertezas de alguns e até o “nerdismo” (fascinação com as novas tecnologias) de outros também fazem parte deste contexto.

O desafio recolher experiências passadas, presentes e futuras de prática do jornalismo para contextualizá-las dentro da preocupação com o novo papel que a atividade passa a ter como principal item na captação da atenção pública num ambiente marcado pela avalancha noticiosa e pela desorientação informativa.

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