Razões para fazer uma “leitura crítica” dos telejornais da TV Globo

Existem duas maneiras, igualmente equivocadas, de assistir os telejornais da TV Globo: acreditar que tudo é verdade, ou achar que ela só divulga fake news (notícias falsas) e desinformação. São formas equivocadas porque geralmente partem de ideias preconcebidas, o que podem gerar reações de satisfação ou repulsa, dependendo do posicionamento do telespectador.

Image for post
Image for post
Foto Wikimedia Commons

Acontece que, hoje vivemos numa era de excesso de informações e de diversidade de percepções, o que gera graus variáveis de perplexidade noticiosa na maioria das pessoas. Além das notícias falsas, que ganham veracidade graças a sua divulgação repetida, existe a desinformação, onde se publica apenas um lado do fato ou evento, omitindo os demais, o que gera uma percepção propositalmente distorcida da realidade.

Numa situação como esta, cresce o número de pessoas que assumiram a apatia informativa, ou seja, ignoram as notícias para não se sentirem desorientadas e manipuladas. No extremo oposto surgem os “guetos” informativos, onde todos pensam igual e tendem ao extremismo xenófobo. Para quem não deseja se tornar um ermitão noticioso ou um profissional da desinformação, resta o recurso da “leitura crítica”, um procedimento baseado na prudência informativa e na análise de dados, fatos e eventos com base em questionamentos sem preconceitos partidários ou corporativistas.

Por meio da leitura critica da imprensa é possível não ser contagiado pela polarização dos opostos ideológicos e entender melhor a conjuntura política de um determinado momento, ao identificar como jornais, revistas, noticiários radiofônicos, sites na internet e telejornais influenciam e são influenciados por governantes, partidos, corporações empresariais, magistrados, militares, policiais e pela burocracia estatal.

No caso atual da polêmica em torno da decretação da intervenção na segurança do estado do Rio de Janeiro, bem antes dela ser anunciada no noticiário da Globo, os telejornais da emissora já vinham usando intensamente os mecanismos de desinformação, ao maximizar a insegurança na capital fluminense. A violência urbana não é um fenômeno novo no Rio de Janeiro, mas desde o segundo semestre do ano passado, a Globo passou a dar um grande destaque à cobertura de assaltos, assassinatos, balas perdidas, roubos de cargas, arrastões, tiroteios e mortes tanto de civis como de policiais.

Estratégias editoriais pré intervenção

A cobertura passou a ser intensiva focando especialmente em dois pontos: a incapacidade da PM carioca de conter a violência e os dramas individuais de quem perdeu parentes em confrontos entre grupos de delinquentes ou entre estes e a policia. A ineficiência policial, mesmo amparada por algumas unidades das Forças Armadas e da Força Nacional, era indiretamente associada à omissão e incapacidade dos governantes cariocas, dando um tratamento politico ao fenômeno da insegurança no Rio.

Já a dramatização dos relatos das vítimas conferia um caráter personalizado ao problema da violência e em especial às veladas insinuações de que ela poderia atingir qualquer um dos telespectadores de telejornais como o Jornal Nacional. A ampliação dramatizada dos efeitos da insegurança chegou a um grau máximo durante o carnaval com imagens impactantes de assaltos e arrastões, bem como de vítimas de delinquentes. As imagens consolidaram entre os telespectadores a percepção de que a violência no Rio ficou fora de controle por omissão e incapacidade dos seus governantes e responsáveis pela ordem pública.

A Globo e os especialistas em segurança pública sabem que nas circunstâncias atuais (multidões exacerbadas, frustrações reprimidas e o efeito manada ajudado pelo Whatsapp) fornecem o combustível necessário para explosões de violência como tem acontecido rotineiramente em torno dos estádios de futebol quando há algum jogo importante. Mas no último carnaval, os atos promovidos por vândalos e delinquentes foram alçados à categoria de ameaça à segurança da população, que consequentemente entrou em estado de pânico.

Aqui não estamos dizendo que não houve violência. Ela aconteceu sim, foi grave, intensa e assustadora, mas a decisão da Globo, e também de outras emissoras, de colocar os fatos sob uma lente de aumento, foi fruto de uma decisão política que obviamente não foi um ato isolado dos editores de telejornais. A imprensa é o veículo preferencial dos tomadores de decisões para transmitir mensagens de seu interesse ao público em geral. Mas os jornais, revistas e telejornais tem o poder de destacar este ou aquele elemento dentro do conjunto de fatos mencionados ou exibidos pelos governantes.

Leitura crítica do noticiário da intervenção

Dependendo o enfoque adotado, a imprensa pode alterar o impacto da mensagem e criar um tipo especifico de percepção do público. Esta capacidade de criar percepções diferenciadas dá a imprensa um papel politico importantíssimo e a coloca como protagonista obrigatório no jogo do poder. O fato de a mídia poder destacar este ou aquele aspecto de uma ação governamental faz com que os tomadores de decisões também incorporem procedimentos típicos da imprensa ano anunciar qualquer medida. Estabelece-se assim uma relação especial entre quem emite uma ordem e quem a transmite para o resto da população.

No caso da crise da intervenção na segurança do Rio de Janeiro, a TV Globo criou o clima de “algo precisa ser feito” , assumido pela maioria da população. Ela obviamente não estava sozinha neste propósito, logo foi condicionada por seus parceiros e acabou condicionando a reação do governo Temer. O presidente tomou uma decisão polêmica e de desdobramentos incertos, tentando aproveitar em causa própria uma expectativa criada por desafetos seus.

Este é um exemplo sumário do que pode ser uma leitura critica dos acontecimentos. Quem conseguiu acompanhar o meu raciocínio, talvez tenha percebido porque estar contra ou a favor da intervenção pode ser menos relevante do que compreender o que realmente está em jogo numa crise que acabou embaralhando os posicionamentos dos seus principais protagonistas. Por trás da avalancha de fatos, comentários e opiniões, é possível perceber que o noticiário indica que a pacificação do Rio de Janeiro, algo que os especialistas consideram complexo e de longo prazo, pode vir a ser superada pelo dilema do que fazer com o governo Temer, caso a intervenção não dê resultados significativos e imediatos.

Para saber o que vem por ai, o melhor indicador é usar a “leitura crítica” para observar os detalhes da linha editorial assumida pelos telejornais da Globo nas próximas semanas. Falo da Globo porque é a emissora que mais condiciona a opinião pública, mas o mesmo raciocínio pode ser aplicado a toda a imprensa.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store