Quem matou Marielle ????????

Mais de 10 dias depois do assassinato de vereadora carioca Marielle Franco reina um silêncio muito suspeito em torno das investigações do crime. Ninguém fala, há um mutismo total por parte das autoridades e o tão decantado jornalismo investigativo da imprensa se limita a esperar que um general, delegado ou ministro divulgue algum comunicado oficial. Os vazamentos, tão frequentes nas investigações sobre corrupção, simplesmente sumiram.

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Marielle Franco / Foto Wikimedia CC

O prolongado silêncio torna-se ainda mais paradoxal porque os telejornais e a imprensa escrita continuam divulgando manifestações de apoio a Marielle, ao mesmo tempo que a TV Globo enfatiza a questão das notícias falsas e mensagens de ódio racial, étnico e de gênero ligadas à vereadora do PSOL, eleita com 46 mil votos em 2016. Quem assiste o Jornal Nacional tem a impressão de que a ofensiva contra as notícias falsas é mais importante do que a identificação dos criminosos e dos objetivos do crime.

A paralisia investigativa da imprensa lembra os tempos da ditadura militar quando os jornais se limitavam a divulgar versões oficiais e projeta uma sombra de dúvida sobre o trabalho dos organismos encarregados da segurança pública no Rio de Janeiro. Ou os investigadores estão totalmente perdidos, já que nada de concreto anunciaram até agora, ou descobriram e estão montando uma explicação que atenda aos objetivos da intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro.

As duas hipóteses são igualmente preocupantes porque levantam suspeitas sobre a credibilidade da versão e dos acusados quando, e se, ambos forem finalmente divulgados. Os organismos de inteligência, que se mostraram tão eficientes e rápidos em investigações como a Lava Jato, aparentemente estão sendo deixados de lado no caso Marielle, que não é apenas uma vereadora de esquerda mas uma ativista de causas sociais muito populares , inclusive pela visibilidade dada a elas pela TV Globo.

A cobertura da imprensa, de forma sutil, vem procurando separar o crime das causas sociais defendidas por Marielle. Manifestações racistas, xenófobas, machistas e de associação com o narcotráfico têm merecido mais cobertura crítica do que a cobrança de resultados nas investigações. Isto pode indicar que o assassinato, em si, criou muitos embaraços aos organismos de segurança, devido possivelmente, a descobertas que não se encaixam no perfil clássico do delinquente comum nas favelas no Rio de Janeiro.

É interessante notar quer os telejornais da Rede Bandeirantes têm abordado com mais frequência a falta de informações sobre as investigações, enquanto a TV Globo prima por um enigmático jejum noticioso no que se refere às ações da polícia e do sistema de segurança pública sob intervenção militar. A Bandeirantes já fala de suspeitas de vinculação das milícias e policiais no assassinato de Marielle, mas sem agregar dados concretos. A Globo repete, de forma exaustiva, os vídeos da perseguição dos carros supostamente pilotados pelos criminosos ao veículo onde estava a vereadora.

Tudo o que está acontecendo no caso da vereadora carioca mostra a importância que a transparência passou a ter na diferenciação entre um sistema autoritário e o de participação cidadã. Quando não há transparência, a manipulação é inevitável porque as autoridades podem montar a versão que mais lhes convier, enquanto a população fica privada dos dados indispensáveis à formação de opiniões. São criadas as condições para a viralização de rumores e boatos, o que aumenta a insegurança informativa já provocada pelo fenômeno das notícias falsas.

Neste contexto, a cobrança de transparência nas investigações do caso Marielle passa a ter uma importância social e política, transcendendo aos limites de uma investigação policial comum. O que está em jogo passa a ser a credibilidade nos organismos de segurança.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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