Quanto a imprensa perde poder político para as redes sociais

A imprensa brasileira parece estar perdendo todo seu cacife no jogo do poder ao não conseguir que o presidente Jair Bolsonaro recue em suas agressões quase diárias aos jornais Folha de São Paulo e O Globo, bem como aos telejornais da Rede Globo. Noutros tempos, a série de diatribes presidenciais contra a imprensa já teriam provocado um terremoto político em Brasília.

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Ilustração Pxfuel / Creative Commons

O mesmo fenômeno ocorre nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump também vocifera permanentemente contra a grande imprensa norte-americana acusando-a de só publicar notícias falsas. Trump e Bolsonaro usam rotineiramente as chamadas fake news, que mesmo desmentidas pelos jornais, permanecem intocadas na retórica presidencial.

A imprensa, que ainda é vista como um Quarto Poder dá sinais de impotência diante de líderes ultra conservadores, aparentemente, por temer a influência que eles têm sobre segmentos sociais também conservadores e que mostram disposição para levar a radicalização e polarização políticas a limites nunca antes alcançados. A situação é bem diferente da que prevaleceu em governos de esquerda ou reformistas quando surgiram esforços para reduzir o poder da imprensa, dando origem a uma violenta reação do Quarto Poder, apoiado por políticos conservadores e pela elite econômica.

Bolsonaro e Trump usam as redes sociais como seu canal preferencial de comunicação com seguidores, rompendo com a tradicional dependência dos governantes em relação à imprensa, que até a chegada da internet era o único meio de acesso ao público em geral. Até empresários já estão passando por cima dos jornais e telejornais para passar mensagens diretamente aos consumidores usando Facebook, Twitter, Whatsapp, Youtube e Instagram.

Os porta-vozes da presidência da República eram até bem pouco tempo atrás personagens importantes em Brasília e Washington. Hoje, Bolsonaro nem tem mais um porta-voz pois ele fala direto com seus apoiadores pelo Twitter. Na Casa Branca, ainda existe um secretario de imprensa, mas ele virou figura decorativa diante do protagonismo midiático de Donald Trump.

Até nas empresas, a função de assessor de imprensa está começando a desaparecer. Há semanas, a empresa fabricante dos veículos elétricos Tesla, nos Estados Unidos, fechou a assessoria encarregada de relações com jornalistas, deixando claro que o cargo se tornou supérfluo na era das redes sociais, tendência que está sendo seguida com maior ou menor intensidade por outras grandes corporações norte-americanas. Os executivos de grandes empresas tomaram gosto pelo Twitter e Facebook tornando redundante a função de assessor de imprensa.

A nostalgia dos bons tempos

O jornal The Washington Post publicou há dias um artigo expressando a nostalgia e a frustração de jornalistas outrora influentes e que agora começam a ser esnobados pelos detentores do poder em governos e em empresas. Os profissionais da imprensa costumavam definir-se como Cães de Guarda dos poderosos, mas na era da internet as redes sociais têm se mostrado mais influente no patrulhamento diário de governantes.

Os jornais precisam perder o saudosismo dos tempos em que eram o Quarto Poder para rever seu posicionamento nos tempos modernos. As redes sociais não têm a necessária coesão e expertise coletiva para realizar investigações mais complexas como as que envolveram casos como o organizado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e que ficou mundialmente conhecido como Panamá Papers. Só grupos organizados e empresas de grande porte podem gastar dois anos para reunir 11,5 milhões de documentos em 18 países como ocorreu o caso dos papéis envolvendo lavagem de dinheiro em paraísos fiscais como o Panamá.

A redução da capacidade da imprensa de patrulhar os governos e grandes corporações é um fenômeno com fortes repercussões na forma como o público tem acesso à informação. As redes sociais e as novas modalidades de jornalismo baseadas no engajamento entre profissionais e o público são um processo em desenvolvimento e ainda falta muito para que este jornalismo reinventado consiga suprir toda a nossa demanda por notícias socialmente relevantes.

Enquanto isto não acontecer, os governos e as grandes corporações têm o poder econômico suficiente para, usando as ferramentas digitais, impor a sua versão dos fatos e condicionar a formação da opinião pública. Dai a necessidade urgente da imprensa repensar o seu papel, não mais como um negócio lucrativo, mas como uma estrutura pública de informação e comunicação (num próximo texto vou detalhar esta ideia de estrutura pública).

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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