Porque as notícias não são um retrato da realidade e como esta ideia entrou em crise

A informação não é um retrato da realidade, como a maioria das pessoas ainda acredita. Ela pode ser no máximo uma aproximação da realidade, ou uma representação incompleta. A realidade existe por si só. A informação é produzida a partir de representações da realidade por seres humanos. A informação é uma realidade diferente da própria realidade e, portanto, precisa ser analisada de forma específica.

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Estátua de leitor de jornal. Foto Maxpixel /CC

Tomemos por exemplo, o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo. Estamos discutindo a tragédia a partir do noticiário da imprensa, o que leva a maioria das pessoas a tomar como fatos objetivos as descrições e interpretações produzidas por jornalistas, vítimas ou testemunhas. Cada indivíduo que participa na produção de uma notícia (jornalistas e entrevistados) tem sua percepção pessoal, que é influenciada pelo seu passado, nível de conhecimento, formação intelectual, situação emocional e muitos outros fatores.

Já os engenheiros, bombeiros, socorristas e policiais usam normas e processos diferentes dos repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e o público em geral para analisar um desastre como o registrado dia primeiro de maio, no Largo Paissandu, em São Paulo. Os primeiros seguem procedimentos técnicos e normas institucionais, enquanto os jornalistas produzem narrativas sobre o evento para atender à curiosidade do público. Disto resulta que temos uma realidade, a do desabamento do prédio de 24 andares, e outra realidade distinta, a das notícias sobre o acidente, publicadas na imprensa.

Esta distinção é fundamental para nós leitores, ouvintes ou telespectadores porque estamos lidando com a realidade da notícia publicada, onde a nossa compreensão e posicionamento dependem de fatores que não estão impressos ou em imagens jornalísticas. Estes fatores, geralmente não publicados, são tão ou mais importantes do que a notícia que chega até nós. São questões básicas como, por exemplo: O repórter viu o acidente ou se baseou no depoimento de testemunhas, o profissional conferiu a informação com outras fontes, preocupou-se em colher dados evitando posições apriorísticas, como ele tratou as vítimas….

Por princípio, a informação nunca é suficientemente completa para retratar toda a realidade a que ela se refere. Isto porque nossos sentidos não conseguem captar toda a realidade objetiva. Sempre é uma captura parcial e neste sentido ela é uma falsa representação da realidade. Mas é preciso diferenciar a falsidade por incapacidade humana de captar toda a realidade, de uma distorção premeditada de dados, fatos e eventos visando um determinado objetivo.

O primeiro tipo de falsificação ou distorção da informação é uma característica natural nos indivíduos, uma limitação física e intelectual. Já o segundo, tristemente celebrizado nas fake news, é um delito que está sendo cada vez mais praticado impunemente por políticos e agentes públicos, com a cumplicidade de alguns jornalistas e comentaristas.

Mudança de hábitos, princípios e valores

Quando analisamos uma notícia jornalística, nossa preocupação imediata, quase automática, deveria ser a de procurar separar a narrativa sobre uma tragédia, do fato em si. É uma forma de evitar posicionamentos pessoais equivocados decorrentes da nossa tendência em julgar os fatos pelas narrativas. Teóricos da comunicação como o italiano Alberto Melucci garantem que a informação, publicada num telejornal ou veículos impresso, é uma realidade tão palpável quanto os fatos a que ela se refere.

Isto posto, nós leitores, ouvintes, telespectadores e internautas já não podemos mais ignorar as distorções, intencionais ou não, embutidas numa informação. Teremos que assumir, cada vez mais, um comportamento analítico diante de uma notícia. Como já disse num outro texto também publicado aqui no Medium, é tão enganoso acreditar em tudo que lemos, ouvimos ou vemos na imprensa, como descrer de todas as informações que ela publica.

Por outro lado, a imprensa precisa abandonar a velha, e pouco científica, posição de “espelho da realidade” . Não há, e nem nunca houve, reprodução fiel da realidade através das páginas de um jornal ou revista. Nem mesmo as fotos ou vídeos são um retrato do mundo que nos cerca, porque o fotógrafo, ou cinegrafista, pode escolher determinados ângulos ou abordagens de um evento e ignorar outros, seja por limitações técnicas objetivas ou por opção deliberada.

Esta nova forma de nos relacionarmos com a informação jornalística é uma consequência do avassalador aumento na circulação de informações a partir do surgimento da internet. Antes da revolução digital, o volume de dados, fatos, eventos e ideias publicadas na imprensa era bem menor por conta de limitações técnicas na produção, edição e distribuição das informações. Agora estamos diante de uma situação nova que está nos obrigando a mudar hábitos, princípios e valores, em especial os que se referem à forma como lidamos com a notícia.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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