Porque a sobrevivência da democracia depende do jornalismo local

Pesquisas recentes realizadas nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra mostram uma preocupante relação entre o enfraquecimento do jornalismo local e o avanço da polarização política nas campanhas eleitorais em municípios e cidades com menos de 40 mil habitantes. Trata-se de um fenômeno ainda pouco estudado, mas que indica um ameaça potencial para a sobrevivência da democracia em países como o Brasil.

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Ilustração Wikimedia /Creative Commons

Embora não tenhamos indicadores recentes da redução no número de jornais locais aqui no Brasil, o resultado das eleições de 2018 mostrou um aumento de aproximadamente 33% na polarização política dos eleitores, conforme estudo realizado pelos professores Pablo Ortellado e Marcio Ribeiro, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Em novembro de 2018, a revista acadêmica publicou um artigo científico analisando porque a crise na imprensa local levou os norte-americanos a substituir a preocupação comunitária pela militância ideológica em eleições municipais realizadas nos últimos cinco anos.

A imprensa local está em crise em quase todo mundo, segundo intensidades variáveis, porque a internet provocou uma mudança nos interesses de leitores ao mesmo tempo em que a publicidade online passou a atrair os anunciantes, provocando o agravamento das dificuldades econômicas de jornais, revistas e emissoras de rádio em pequenas e médias cidades. O que, inicialmente, foi encarado como um problema de gestão na imprensa, hoje assume cada vez mais um caráter político e comportamental.

O enfraquecimento da capacidade editorial de jornais locais obriga os moradores de pequenas e médias cidades a se informar através dos jornais nacionais, cuja agenda editorial está condicionada por temas vinculados aos grandes interesses político e corporativos, onde os posicionamentos ideológicos assumem grande relevância. Isto faz com o que o público do interior acabe contaminado pela polêmica em torno a temas sobre os quais ele tem reduzida capacidade de posicionamento crítico. Uma pesquisa do professor Phillip Napoli, da Universidade Duke, dos Estados Unidos, mostrou que apenas 17% das noticias publicadas por jornais nas 100 pequenas e médias comunidades pesquisadas continham informações locais.

Quando o jornalismo local está sintonizado com os problemas municipais ele consegue reproduzir a grande diversidade de percepções e necessidades da população, o que torna o debate público mais amplo, o que geralmente acaba levando à eleição de políticos mais afinados com os problemas municipais. O agravamento das dificuldades econômicas dos jornais locais levou, no entanto, os seus proprietários a sobrepor objetivos financeiros imediatos às preocupações dos leitores, contribuindo para o distanciamento entre as redações e o seu público.

Os “desertos informativos”

Até agora, o senso comum entre jornalistas e políticos era o de que os jornais e emissoras de rádio das pequenas cidades não tinham influência relevante na definição de políticas nacionais. Segundo o projeto , 416 cidades brasileiras, totalizando 15 milhões de habitantes, com audiência média estimada em 33 mil leitores, têm apenas um jornal ou site de notícias. Nos Estados Unidos, a crise da imprensa local gerou o fenômeno definido como “desertificação informativa”, regiões inteiras onde não há mais cobertura de assuntos municipais ou onde os jornais se limitam a tratar de crime, esportes e eventos sociais.

O é uma iniciativa pioneira no Brasil em matéria de valorizar a pesquisa sobre a imprensa local, mas noutros países, a preocupação com as consequências dos “desertos noticiosos” já levou várias universidades a procurar medir o efeito da crise no enfraquecimento da vigilância pública sobre as prefeituras e órgãos públicos municipais, o que se reflete diretamente na falta de transparência em questões como abastecimento de água, saneamento básico e destinação dada à receita com impostos.

Os dilemas da produção e disseminação de informações locais tendem a ganhar uma nova dimensão a medida que a digitalização avança entre os moradores de pequenas e medias cidades. Os jornais impressos tradicionais enfrentam o desafio de trocar ou não o papel pela internet. O público jovem adere em massa ao , e para formar tribos virtuais onde o fluxo de informações ainda ocorre de forma anárquica, enquanto as gerações mais velhas são contaminadas pela incerteza gerada por notícias contraditórias, descontextualizadas e até falsas, geradas pela avalancha informativa nas redes sociais online.

Vista inicialmente como a tábua de salvação da imprensa local, a internet acabou se transformando numa dor de cabeça adicional tanto para o jornalismo comunitário como para os defensores do sistema democrático.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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