Porque a mídia agora prefere formar opiniões em vez de informar

A publicidade comercial e a imprensa estão mudando o foco principal de suas estratégias de comunicação para focar em novos objetivos que alteram radicalmente o discurso adotado por publicitários e executivos de empresas jornalísticas até o início do século XXI. A tendência contemporânea na publicidade deixou de ser a venda de produtos ou serviços para enfatizar o que você deve ser, como devem ser os seus comportamentos. Já a imprensa não se contenta mais em dar notícias, mas em colocar dados, fatos e eventos no contexto que ela escolheu.

São duas tendências simultâneas que já começaram a mudar nossas atitudes e devem ter repercussões a médio e longo prazo na forma como vemos o mundo em que vivemos.

Vocês provavelmente já assistiram algum dos spots publicitários da TV Globo falando sobre a necessidade do respeito na vida social ou a apologia da diversidade étnico-cultural na sociedade contemporânea. É uma linha de mensagens publicitárias que não estão associadas diretamente à venda de um produto ou serviço. A nova estratégia publicitária visa gerar comportamentos e valores destinados a aliviar tensões políticas, sociais e econômicas que podem prejudicar os negócios da indústria, comércio, agricultura e o setor de serviços.

A publicidade da Globo, incluindo o spot Agro é Pop que procura vincular o agronegócio ao nosso bem estar diário, segue a mesma linha de anúncios como o da rede Intercontinental que aposta na noção de empatia como o carro chefe das mensagens publicitárias da multinacional hoteleira. A empresa Apple desenvolveu um comercial onde pede a seus clientes que “abram o coração para outras pessoas”, enquanto a rede norte-americana de cafeterias Starbuck , definiu o ano de 2017 como o “ano do bem”, para destacar suas ações em favor de minorias étnicas e veteranos das guerras no Iraque e Afeganistão.

Megan Garber, num artigo publicado na revista norte-americana The Atlantic afirma que esta nova tendência procura associar dilemas contemporâneos a questões morais com um claro objetivo político. “Este é um momento de preocupação política generalizada na sociedade norte-americana: A política contaminou a cultura popular, a cultura acadêmica e até a cultura comercial”, diz Megan.

Avalanche informativa e os algoritmos

No jornalismo estamos vivendo um momento semelhante com a gradual substituição da preocupação com a apresentação objetiva de fatos, dados e eventos pela crescente prioridade na formatação da notícia segundo um viés previamente estabelecido. O viés sempre existiu porque a objetividade absoluta é inviável no jornalismo, mas ele foi dissimulado pelo discurso da imparcialidade e isenção, que ainda vigora na maioria das redações.

A mudança é uma das consequências nas inovações tecnológicas responsáveis pela avalanche informativa gerada pela internet e pelos processos de automação noticiosa, viabilizados pelos chamados bots ou robôs eletrônicos baseados em algoritmos (softwares que realizam tarefas específicas de forma automática). A super-oferta de informações, aliada a sua apresentação automatizada e uniformizada, levou as empresas jornalísticas a diversificarem sua produção noticiosa visando diferenciá-la dos concorrentes. Como este processo ocorre num ambiente bastante polarizado como o brasileiro e o norte-americano, ele acabou criando as condições para o uso intensivo do viés político e ideológico como recurso fácil na busca de leitores e telespectadores.

Estamos no limiar de algumas mudanças importantes em matéria de atitudes. Uma pesquisa recente da multinacional da propaganda J.W. Thompson revelou que 88% dos norte-americanos consultados acham que as empresas privadas tem o poder de influir em questões sociais relevantes. Deste grupo, 78% foram ainda mais longe afirmando que as corporações devem participar da busca de soluções para os dilemas contemporâneos. Esta mesma posição foi defendida pela maioria esmagadora dos jovens com menos de 40 anos, os chamados Millennials ( geração que tem hoje entre 25 e 35 anos).

As empresas reagiram mudando suas estratégias de marketing passando a destacar questões morais e comportamentais na sua publicidade. Não se trata tanto de uma reviravolta política das corporações e mais de uma manobra para não perder contato com seus clientes. Mas há uma interpretação sociológica compartilhada por alguns especialistas em comportamentos sociais que admite a possibilidade da nova estratégia das empresas ser o reflexo do crescente descrédito das pessoas em relação aos governantes, políticos e a imprensa.

As empresas estão se adaptando rapidamente às consequências das inovações tecnológicas e ao polarizado contexto político contemporâneo, mas o público ainda não se deu conta de que o discurso jornalístico da objetividade e o marketing comercial das vantagens e promoções estão perdendo sentido rapidamente. O problema é quando e como as pessoas tomarão consciência das consequências individuais e coletivas das novas estratégias corporativas de informação jornalística e publicidade comercial.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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