Paradoxos brasileiros:
Quando velhos projetos são batizados de “ nova política” e partidos falidos viram esperança democrática

O bate-boca entre o presidente Bolsonaro e o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, é muito mais do que uma disputa pessoal ou um conflito entre poderes institucionais. É uma manifestação das consequências da crise terminal dos atuais partidos políticos e do surgimento de uma nova identidade ideológica embasada em propostas corporativistas.

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Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia Foto Wikipedia /Creative Commons

Ambos protagonistas da atual queda de braço em torno da reforma da previdência social, parecem ignorar a real natureza do conflito em que estão envolvidos e que é apresentado ao público como se fosse um embate entre uma “nova política” e uma “velha política”.

O presidente Bolsonaro adotou o discurso da “nova política” para tentar travestir velhas propostas ligadas ao conservadorismo radical como sendo uma forma inovadora de fazer política. Por seu lado, Rodrigo Maia posiciona-se como o porta-voz da estrutura partidária tradicional e falida, mas com um discurso que contraria a retórica presidencial.

Na verdade, temos uma tentativa de caracterizar como novo algo já bem velho, em contraposição a um estratégia integrada por uma retórica que surge como algo inovador no cenário politico nacional, mesmo estando associada a uma estrutura partidária falida.

Para entender este “ imbroglio” é necessário partir do fato de que os atuais partidos políticos brasileiros perderam consistência ideológica porque as próprias ideologias deixaram de ser o que eram, numa mudança que se tornou palpável após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e da implosão da União Soviética, dois anos mais tarde.

O fim da Guerra Fria entre os blocos capitalista e comunista atenuou a tradicional dicotomia ideológica entre as nações ocidentais e a União Soviética, o que acabou contribuindo também para que os conceitos de esquerda e direita na política mundial passassem a confundir mais do que explicar a natureza do conflito entre ambos os sistemas políticos.

A orfandade ideológica

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, a revolução digital levou o capitalismo clássico a incorporar muitos itens do socialismo, enquanto o comunismo perdeu consistência como nova proposta de organização social, econômica e política. Aqui no Brasil, os partidos políticos foram fortemente influenciados e condicionados pelo confronto capitalismo/socialismo, mas depois do fim da Guerra Fria, eles ficaram ideologicamente órfãos e acabaram se transformando em organizações eleitorais baseadas na troca de negócios com dinheiro público por propinas destinadas a financiar a caça a votos.

Os partidos brasileiros viraram estruturas ocas, onde a falta de ideias novas foi substituída por um imediatismo, cujo campo de visão alcança apenas a próxima eleição. Isto favoreceu o surgimento de facções internas ligadas a caciques, em geral políticos dotados de prestígio e habilidades suficientes para negociar favores a empresas em troca de propina eleitoral e pessoal.

Diante da descaracterização ideológica dos partidos, líderes de corporações econômicas e órfãos políticos da Guerra Fria vislumbraram a possibilidade de aglutinar candidatos e legisladores em torno de temas e reivindicações setoriais. Os primeiros a detectar esta janela de oportunidades eleitorais foram as igrejas evangélicas, seguidos pelos adeptos do endurecimento no combate à criminalidade, juízes e procuradores frustrados com a impunidade da corrupção institucionalizada e os líderes do agronegócio. Surgiram assim, respectivamente, as bancadas da Bíblia, da Bala, da Lava Jato, e do Boi.

É neste contexto que se insere a polêmica entre Bolsonaro e Maia. Bolsonaro não tem uma base partidária estruturada, portanto sua estratégia natural seria apelar para as bancadas temáticas, cujos membros estão espalhados por diversos partidos, já que a legislação obriga que os candidatos se inscrevam por siglas.

A batalha dos discursos

Mas as bancadas, com exceção da integrada por ruralistas, não têm organização interna e, portanto, agem na base do voluntarismo e sem estratégias comuns na atuação parlamentar. Coincidentemente, as primeiras organizações temáticas no Congresso Nacional são ideologicamente conservadoras, embora seja uma questão de tempo surgirem bancadas alinhadas com reivindicações populares.

O deputado Rodrigo Maia deve seu cargo de presidente da Câmara ao voto dos partidos, o que o leva a ser um defensor da estrutura política tradicional vigente no Congresso Nacional, mas a conjuntura atual acabou transformando-o no principal crítico de Bolsonaro. O Presidente da República vive uma aguda queda de popularidade devido ao seu estilo impulsivo e errático, às trapalhadas de seus filhos, a uma tendência ao autoritarismo e à falta de um programa de governo amplo e coerente.

Tudo isto o coloca numa posição antipática em relação ao público, fato de que se aproveita Rodrigo Maia para preencher o vácuo político na oposição ao governo atual por meio de um posicionamento que cobra do presidente justamente aquilo que mais falta ao atual inquilino do Palácio do Planalto: empenho concreto na articulação da reforma da previdência, tida como a tábua de salvação da gestão Bolsonaro.

Temos, portanto, uma competição entre dois tipos de retórica que encobrem realidades opostas e criam um paradoxo politico que confunde a opinião pública, que tem enorme dificuldade para entender o que realmente está acontecendo. Trata-se de um conflito onde nenhum dos contendores tem força suficiente para eliminar o antagonista. O que levou Bolsonaro e Maia a tentar ganhar simpatias e adesões usando a manipulação do discurso como estratégia principal.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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