Pós- verdade, pós- fato e pós- jornalismo

A cada dia fica mais claro que o principal desafio do jornalismo na era digital não está na tecnologia, nem no relacionamento com leitores e muito menos na descoberta de um novo modelo de negócios. Está na forma como a profissão lidará com o problema da veracidade de noticias e informações, porque este problema afeta o DNA do jornalismo, já que sem credibilidade, a atividade perde razão de existir.

Image for post
Image for post
Ilustração Pixabay / Creative Commons

O jornalismo sempre se propôs a ser um arauto da verdade. Na era industrial isto até poderia ser viável porque o fluxo de informações era limitado pelas limitações tecnológicas da imprensa, mas a partir do momento que começamos a ingressar na era digital, o conceito de verdade mudou e como ele os procedimentos, normas e valores associados à atividade.

Hoje está cada vez mais claro que não existe uma verdade absoluta porque não há, pelo menos no momento, uma inteligência suficientemente ampla com capacidade de trabalhar toda a massa de informações que começa a ser liberada pela computação e pela internet. Pode ser que um dia isto aconteça, mas agora, e pelo futuro próximo, é inviável pensar num supercérebro capaz de processar os zilhões de bytes e bits lançados, a cada segundo, na nuvem da internet.

A revolução digital permitiu o surgimento de um número, teoricamente infinito, de dados e versões sobre um mesmo fato. Na prática isto significa que não há uma versão definitiva que possa ser qualificada como verdade. Teremos sempre aproximações e situações como a que estamos vivendo agora com o debate em torno da pós verdade e das fake news. Este debate vai longe porque coloca de um lado o conceito analógico de verdade, baseado na dicotomia verdadeiro ou falso, e do outro a ideia, ainda pouco precisa, da relativização de dados, fatos e eventos em nosso quotidiano.

A discussão afeta a forma como nos relacionamos com a realidade que nos cerca. Fomos educados a crer na existência do verdadeiro e do falso, mas agora ficou muito difícil saber o que é certo ou errado diante da multiplicação exponencial de percepções e opiniões sobre um mesmo dado, fato ou evento. Para fazer escolhas, mesmo as simples, estamos sendo obrigados a pesquisar, discutir e refletir. Isto toma tempo e dá trabalho.

O pós jornalismo

No passado, atribuíamos ao jornalismo a tarefa de resolver nossas dúvidas e incertezas sobre o mundo que nos cerca. Só que hoje a imprensa também passou a viver o dilema de lidar com uma matéria prima, a informação, que já não pode mais ser enquadrada nas categorias usadas, antes da internet, para definir o que é verdadeiro ou falso. Prova disto é polêmica mundial sobre as fake news, uma expressão popularizada pelo presidente norte-americano Donald Trump.

Alguns pesquisadores do jornalismo e da comunicação propõem que em vez de polemizarmos em torno da veracidade ou falsidade de uma afirmação, passemos a dar mais importância a se ela está baseada em fatos ou em especulações, desejos e imaginação. No primeiro caso, poderia ser considerada verdadeira e no segundo, a afirmação estaria baseada em suposições, crendices ou no whisfull thinking ( expressão inglesa para definir algo que gostaríamos que acontecesse).

O problema é que a avaliação da factualidade depende da forma como um indivíduo percebe o mundo que nos cerca, através dos cinco sentidos humanos, mas a ciência nos informa que a visão, audição, tato, paladar e olfato são funções personalizadas, ou seja, variam de pessoa a pessoa, dependem de fatores como cultura, raça, idade, experiência de vida e educação. A definição se uma afirmação é factual ou não, é menos sujeita a fatores subjetivos que a da distinção entre verdadeiro ou falso, mas também não está livre da necessidade de relativizar julgamentos em função de fatores que condicionam cada fato, dado ou evento.

A teoria do pós-fato sugerida por alguns jornalistas como um antidoto à polêmica em torno da pós verdade, sofre a influência da polarização ideológica em torno da adoção de novas rotinas, normas e valores no exercício da profissão. O desdobramento possível seria o surgimento da ideia de um pós-jornalismo, mas isto já é um tema para uma próxima reflexão. Coisa que só poderá ser feita de forma coletiva e interativa, começando por sugestões aparentemente estapafúrdias mas que, se lançadas na mesa do debate, podem funcionar como gatilho para grandes ideias.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store