Os náufragos da informação num oceano de notícias

Nós, como cidadãos, corremos o risco de entrarmos deliberadamente numa bolha política caso deixemos de levar em conta como a imprensa passou a condicionar nossas atitudes. As estratégias de candidatos, políticos, governantes e líderes empresariais valorizam hoje muito mais o binômio comunicação/informação do que o conteúdo e contextos dos problemas que afetam a sociedade. Ter uma estratégia de comunicação é a prioridade número um de quem tem ou aspira um cargo público.

A acelerada ascensão da mídia como fator político determinante em processos eleitorais atropela comportamentos, princípios e valores que determinaram nosso comportamento político durante mais de um século. Estamos sendo empurrados para uma distopia onde políticos, governantes e grandes empresários empoderam-se cada vez mais graças ao uso das tecnologias digitais enquanto nós continuamos sem os dados e informações necessários para entendermos os interesses e motivações embutidos nas notícias que recebemos.

Caso a sociedade não se dê conta da necessidade urgente de discutir como, quando e por que a imprensa influi em nossas decisões, acabaremos vivendo uma ficção política baseada na ideia de que os jornais, telejornais, revistas e páginas políticas na web são os fiadores da verdade e das certezas.

O papel político da imprensa é quase tão antigo quanto os seus quatro séculos de existência, mas foram as tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs) que a transformaram no elemento decisivo nas tomadas de decisões, sejam elas de governantes e empresários, ou do operário desempregado quando escolhe uma fila de candidatos a um emprego. As TICs revolucionaram o mundo da comunicação quando deram ao cidadão comum a capacidade de publicar informações, mas foram os tomadores de grandes decisões que melhor passaram a usar as novas formas de influenciar pessoas.

A estratégia política desenvolvida pelo presidente Donald Trump em sua campanha eleitoral de 2016 tornou-se um paradigma para candidatos a postos eletivos em todo mundo. Bolsonaro não fugiu a este nova regra para conquistar o poder e hoje especialistas em TICS, como a norte-americana Dana Boyd afirmam que a internet e a imprensa são o território escolhido pelos manipuladores da opinião alheia. Dana garante que eles desenvolveram uma estratégia de três itens:

1) Criar algo espetacular para chamar a atenção da imprensa e dos usuários das redes sociais;

2) Em seguida definir o evento ou afirmação espetacular usando expressões que incitem a curiosidade pública e levem as pessoas aos mecanismos de buscas na internet;

3) Promover um “mártir” político ou digital para provocar a radicalização tantos de adeptos como de adversários, gerando polarização e sectarismo.

Aqui no Brasil, os grupos conservadores incorporaram os três itens à sua estratégia de condicionamento da opinião pública através das seguintes ações: a espetacularização das investigações da Lava Jato, a judicialização e ideologização do vocabulário usado por políticos ou jornalistas , e o atentado contra o então candidato direitista Jair Bolsonaro. A espetacularização da Lava Jato provocou uma concentração das atenções da imprensa na desconstrução do petismo e do ex-presidente Lula, através de uma avalanche noticiosa que mesmerizou um público já desorientado pelo desconhecimento de expressões como delação premiada e condução coercitiva, intensivamente usadas por comentaristas e porta-vozes políticos.

A domesticação da opinião pública, já testada na campanha de Donald Trump em 2016, no episódio da interferência russa no processo eleitoral norte-americano, funcionou também aqui, onde culminou com a facada contra Bolsonaro, em Juiz de Fora, em setembro de 2018. Trump e Bolsonaro são dois artífices no uso da espetacularização como arma política, contando com a cumplicidade de segmentos da imprensa que usa o comportamento heterodoxo de ambos para ampliar audiências e o faturamento publicitário.

Aqui e lá a imprensa critica ambos presidentes mas ignora, deliberada ou inconscientemente, que eles querem é justamente isto, numa versão moderna do velho adágio “falem mal de mim, mas falem de mim”. Enquanto isto, as pessoas ficam hipnotizadas pelo espetáculo político-eleitoral protagonizado pelo histrionismo dos candidatos e deixam de pensar no que realmente é importante para elas. A orfandade informativa dos brasileiros e norte-americanos é uma consequência direta da cumplicidade noticiosa com dois presidentes que atraem sobre si os holofotes da mídia, abrindo espaços para que outras subordinados e parlamentares promovam reformas cujo impacto as pessoas só vão sentir e perceber quando for tarde demais.

Caros amigos/as : Estive ausente por algumas semanas por causa de uma operação de catarata. Já está tudo normal e retomo a produção de textos para discussão.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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