Os efeitos colaterais da judicialização dos telejornais

É impossível deixar de notar como os telejornais brasileiros abandonaram a preocupação com os temas de interesse público para concentrar todo o noticiário em questões jurídicas, polêmicas regimentais, denúncias de corrupção e a nova guerra fria entre Estados Unidos e Rússia. Temas como educação, saúde, segurança e emprego, no momento, só são tratados quando relacionados a alguma tragédia, crise ou estatísticas com dados negativos.

Tornou-se rotina reproduzir longas intervenções de juízes do Supremo Tribunal Federal e de outras instâncias judiciais, num linguajar técnico e ininteligível pela maioria esmagadora dos telespectadores. Repórteres e comentaristas passaram a usar o jargão jurídico como se ele fosse de uso corrente no resto da população, o que evidencia a preocupação dos editores de transformar o noticiário num conjunto de mensagens cifradas entre protagonistas do jogo do poder.

A abordagem jornalística sobre denúncias de corrupção ou de gestão temerária de ativos públicos, é invariavelmente baseada na versão de promotores ou magistrados, com considerável volume de detalhes, enquanto as explicações dos suspeitos se limitam a uma monótona repetição de desculpas quase padronizadas. A regra de ouvir os dois lados foi formalmente cumprida, mas uma parte recebe muito mais tempo do que a outra, o que gera percepções também desiguais entre os telespectadores.

Esta semana surgiu um caso exemplar. A qualificação do senador Aécio Neves como réu num processo em que é acusado de pedir dinheiro a um delator foi aprovada por cinco votos a zero, mas não obstante a unanimidade de pontos de vista, os editores colocaram no ar os votos de todos os magistrados, que repetiram quase as mesmas justificativas. Noutros tempos, quando o jornalismo ainda seguia regras básicas de comunicação popular, a notícia se limitaria à unanimidade da decisão e a uma declaração impactante de algum juiz.

Esta judicialização do noticiário é um reflexo da judicialização da política, indicando uma mudança não só no vocabulário como principalmente no contexto em que ocorre o debate público induzido pelos meios de comunicação. Quando a agenda da imprensa passa a ser contaminada pelo discurso jurídico, ocorre um inevitável distanciamento do público leigo em questões legais e uma elitização da retórica dos principais lobbies políticos.

Se antes já era difícil ler nas entrelinhas do noticiário sobre os desdobramentos da operação Lava Jato, agora ficou quase impossível porque o telespectador médio, além do controle remoto, precisa ter à mão o Código Penal e a Constituição, na hora de assistir um telejornal.

Nestas circunstâncias não será surpresa uma queda acentuada dos índices de audiência, mas os responsáveis pelos telejornais parecem muito mais preocupados em cobrir o xadrez jurídico dos protagonistas da luta pelo poder, onde as respectivas empresas de comunicação parecem ter muitos interesses em jogo.

O ônus da perda de audiência pode estar sendo considerado um efeito colateral passageiro pelos executivos de jornais, revistas e telejornais, dada a relevância que a aliança entre a imprensa, Ministério Público e Policia Federal passou a assumir com o avanço da Lava Jato. Entramos definitivamente na era da imprensa como agente político integrado ao sistema de poder, porque sem ela, os demais atores perdem poder de influência tanto entre os tomadores de decisões como entre as pessoas comuns.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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