O que fazer com o governo Bolsonaro?

A cada dia que passa fica mais evidente que o presidente da República não está qualificado para o cargo, não consegue liderar o seu ministério onde coexistem cinco grupos politicamente definidos, não tem planos claros de governo fora da reforma da previdência e do combate à delinquência e não logrou montar uma base parlamentar. Em suma, o capitão Jair Bolsonaro ainda não começou a governar e pior, dá sinais de que almeja ser mais o líder de uma facção ideológica do que o presidente de todos os brasileiros.

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Foto Wikipedia /CC

A vitória eleitoral do candidato do Partido Social Liberal (PSL) ,vista agora a partir de uma distância de cinco meses, parece ter sido o resultado de uma catarse política em vez de uma escolha racional feita por 57 milhões de eleitores. O efeito da catarse anti-petista alimentada pelas denúncias de corrupção parece estar acabando. O sintoma mais claro desta mudança de atitudes é o fato da imagem pública de Bolsonaro encolher cada vez mais. Os 27,1% dos brasileiros que acreditaram num milagre conservador no país começam a perceber que suas expectativas não estão sendo correspondidas.

A desilusão cresce na medida em que as pessoas constatam que Bolsonaro não governa porque não está preparado para a missão presidencial e porque não logra harmonizar os cinco grupos que lutam por poder dentro do ministério. Há o segmento militar que controla postos chaves no governo, mas não consegue administrar a incontinência verbal de Bolsonaro nas redes sociais; outro grupo é formado pelos filhos do presidente e por discípulos do guru da extrema direita Olavo de Carvalho; existem ainda a facção evangélica; os tecnocratas ligados ao ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e o grupo batizado de “República de Curitiba” liderado pelo ministro Sergio Moro e integrada pelos promotores e policiais federais da operação Lava Jato.

Os militares formam o núcleo aglutinado em torno do vice-presidente Hamilton Mourão e cuja principal preocupação é criar uma estrutura capaz de dar operacionalidade do governo. Já o clã Bolsonaro e Olavo de Carvalho não se preocupam muito com a governança federal, preferindo a pregação ideológica ultra direitista na moral pública, na educação e na política internacional. Os evangélicos perderam força depois das eleições porque seus líderes não tem a experiência necessária para lidar com chefes militares, com a agressividade “olavista”, com a complexidade da tecnocracia financeira, e muito menos com o poderoso lobby dos promotores da Lava Jato. O segmento formado pelos integrantes da República de Curitiba escolheu a conquista de posições dentro do poder judiciário como estratégia corporativa.

Uma escolha difícil

A soma das incertezas sobre a personalidade do presidente e o conjunto de conflitos dentro do ministério coloca a população diante do dilema do que fazer com o atual inquilino do Palácio do Planalto: tolerá-lo pelos próximos quatro anos , ignorando as trapalhadas presidenciais e o empenho do clã Bolsonaro de ideologizar o exercício da presidência da República, ou tratar de substitui-lo por uma opção mais qualificada capaz de fazer o governo funcionar com mais ações e menos ideologia?

Não é uma escolha fácil, pois ambas envolvem ações complexas e com alto grau de incerteza. Virar as costas para Brasília pode parecer uma opção atraente do ponto de vista teórico já que cresce no mundo inteiro a tendência à municipalização da política, por meio da descentralização do poder executivo nacional. Mas é uma escolha que, inevitavelmente, exigirá uma mudança radical na nossa cultura política ainda solidamente atrelada ao paternalismo e ao culto de lideranças carismáticas. Trata-se de uma revolução comportamental que vai exigir tempo, enquanto a desigualdade social e a polarização ideológica não param de crescer no país. São dois movimentos em direções opostas que podem levar a impasses e prováveis explosões de impaciência que podem gerar situações irreversíveis.

A outra opção seria tratar de interromper a experiência bolsonarista seja por meios legais, seja por situações de fato. A ex-presidente Dilma Rousseff perdeu o cargo em 2016 por um controvertido impeachment, cuja base legal é discutida até hoje. Há inúmeros interessados na aplicação do mesmo recurso na era Bolsonaro, mas hoje os riscos de um descontrole são ainda maiores e mais graves. A correção do equívoco eleitoral de 2018 pode parecer atraente mas embute um problema bem complicado. Uma solução apressada pode levar à mesma situação pós impeachment de Dilma, quando foram trocados os nomes mas os problemas continuaram se agravando.

O dilema é de todos os brasileiros porque a partir do momento em que Jair Bolsonaro assumiu a presidência como parte do ritual democrático, todos nós, inclusive os que votaram em Haddad , em branco ou anularam seu voto, passaram a ser corresponsáveis por uma decisão eleitoral equivocada e suas consequências. Muitos podem não concordar alegando que não votaram em Bolsonaro, mas se nos proclamamos democratas, precisamos assumir o princípio de que a maioria vence e todos arcamos com as consequências. Democracia é isto, e a tentação de ignorar as regras do jogo quando se descobre que a maioria errou feio, pode nos levar a cometer outro erro.

Para nós eleitores restam duas hipóteses extremas possíveis: continuar cobrando do governo uma coerência e uma eficiência que ele ainda não mostrou ou constatar que os brasileiros podem assumir tarefas e responsabilidades que a equipe de Bolsonaro está ignorando. Nenhuma das duas possibilidades é tranquila e fácil. Na primeira há o sério risco do acúmulo de frustrações levar alguns grupos sociais a perder a paciência e apelar para a violência. Num ambiente já polarizado, é o caminho mais curto para o caos generalizado.

A conta será salgada

A segunda alternativa envolve um longo e complexo esforço para buscar consensos sobre soluções coletivas independentes do governo em áreas como saúde, segurança, educação e outros. Significa romper com uma longa tradição de dependência das bases sociais em relação aos seus governantes. Nunca tivemos uma cultura comunitária porque sempre transferimos as decisões , grandes e pequenas para os governos municipais, estaduais e o federal, com base no argumento de que “se pagamos impostos temos o direito de cobrar”.

Diante de um presidente desqualificado para exercer o cargo e desorientado pela brigalhada geral nos corredores do poder, somos nós que teremos de buscar a solução de problemas que nos afetam diretamente em nossa casa, rua, bairro, cidade ou emprego. Como o Congresso Nacional se enclausurou numa bolha política desconectada da realidade nacional, a alternativa passaria a ser a auto-organização e a pressão sobre as câmaras de vereadores, sabendo que se não conseguirmos promover, de baixo para cima, um mínimo de organização e eficiência na solução dos problemas que nos afligem, somos nós quem vai pagar a conta do déficit social e econômico.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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