O “partido militar” dá as cartas no governo Bolsonaro

Do modo como os fatos estão acontecendo em Brasília, fica cada vez mais claro que está em pleno funcionamento o que poderia ser chamado de “partido militar”, ume entidade informal que passou a ocupar gradualmente pontos estratégicos no governo federal, alterando consideravelmente a situação do presidente Jair Bolsonaro.

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Foto websignd4u

Os quase 50 militares de alta patente que ocupam postos chaves em mais de 20 áreas estratégicas do governo Bolsonaro são hoje uma espécie de garantia de uma organicidade mínima numa estrutura de poder marcada pela instabilidade e pela imprevisível coexistência de ministros civis sem experiência na política, movidos pelo messianismo evangélico e pelo voluntarismo em decisões econômicas.

Mas a ascensão do “partido militar” não se limita a impor a ordem num governo em que os filhos do presidente dão palpites sobre tudo, onde os ministros da ala evangélica só se preocupam com questões de gênero, com o que chamam de degradação familiar e com a ortodoxia educacional, enquanto a equipe econômica dá sinais de que, se deixarem, vai atropelar meio mundo, inclusive o empresariado.

As forças armadas brasileiras são hoje a única organização minimamente estruturada num ambiente em que os partidos, legisladores e sindicatos perderam identidade ideológica, onde o poder judicial foi contaminado pelo ativismo e pelo corporativismo. No setor econômico, muitos empresários tentam tirar vantagem da confusão no governo sem perceber que o país está à beira de mudanças irreversíveis nos processos de produção digital e diante de uma mudança radical no panorama comercial externo.

O efeito facada

Tudo isto fica ainda mais grave e imprevisível pela ausência de liderança do presidente Bolsonaro, que não fez campanha eleitoral por causa do atentado sofrido em setembro em Juiz de Fora. A ausência se prolongou após a posse, no período de hospitalização do chefe de governo, em São Paulo. É confusão demais num país que ainda vive a polarização e radicalização ideológicas geradas pela derrubada do modelo petista e pelo fiasco do governo de Michel Temer.

Diante da complexidade do quadro politico nacional, os militares aparentemente decidiram intervir mais uma vez no governo, mas seguindo agora um modelo diferente. A motivação principal parece ser a de impor uma ordem administrativa usando a experiência acumulada na gestão dos quarteis e de projetos de ponta como o submarino nuclear, a fabricação de aviões e o sistema de vigilância de fronteiras. É como se o Palácio do Planalto tivesse contratado uma equipe de gestores para pôr um mínimo de ordem numa administração que ainda vive a síndrome do descontrole.

Os militares sabem que as principais ameaças à estrutura de poder em Brasília são o potencial corrosivo da corrupção institucionalizada na administração pública, nas empreiteiras e prestadores de serviços ao governo, bem como o crescimento do poder paralelo das milícias e do crime organizado dentro e fora do sistema penitenciário oficial. A Polícia Federal e o Ministério Público assumiram a função repressiva, que em 1964 era desempenhada de forma brutal pelos próprios militares. A repressão também não segue o modelo dos tempos da ditadura, quando as pessoas eram presas clandestinamente ou simplesmente desapareciam.

A nova estratégia

Agora as prisões são amparadas por interpretações da lei por magistrados identificados com o conservadorismo togado, com a colaboração de delatores premiados com redução de pena e ocorrem dentro de uma estratégia de comunicação pela imprensa onde a alegação de combate à corrupção é o argumento principal. O anticomunismo de 1964 foi substituído agora pelo arrazoado moral na neutralização de críticos, como os militantes do Partido dos Trabalhadores, ou personagens historicamente associados à corrupção como o ex-governador Sergio Cabral e o deputado federal Eduardo Cunha. A rebeldia universitária, antes castigada à força, agora poderá ser domada com o recurso a investigações sobre corrupção no ensino superior.

Foto reproduzida do site Catraca Livre

Neste inicio de governo messiânico-populista da família Bolsonaro, o “partido” militar assumiu a difícil tarefa de pôr ordem no Palácio do Planalto. Uma missão que pode trazer um mínimo de tranquilidade a uma população que viveu uma montanha russa política desde o controvertido impeachment de Dilma Rousseff e que está muito desconfiada em relação ao novo governo. Os militares têm todas as condições para evitar que a família Bolsonaro protagonize novos casos como a briga do vereador carioca Carlos Bolsonaro com o ministro Gustavo Bebianno, ou as trapalhadas do senador Flavio Bolsonaro e seus amigos milicianos. O chefe do clã Bolsonaro provavelmente não está gostando muito dos atos de sua prole, mas não pode ignorar a pressão militar porque depende dela para sobreviver na “selva” de Brasília.

Mas o “partido” dos quartéis ainda vai enfrentar outros desafios quando o problema do governo deixar de ser apenas a conduta atabalhoada de vários ministros e filhos do presidente. Se, e quando, a atual desordem institucional e política for superada pela ação do “partido”, surgirá a necessidade dos militares participarem da discussão sobre que ideias orientarão o desenvolvimento futuro do país. O tema que não é central na cultura predominante nos quartéis, tem um alto poder de criar divisionismo entre os militares, o que abre novas dúvidas sobre os anos que faltam para Bolsonaro chegar ao fim de seu mandato.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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