O jornalismo “preguiçoso” dos telejornais brasileiros

O telejornal Hoje, da Rede Globo, transmitiu no sábado dia 9 de dezembro , uma notícia sobre o escândalo do abandono da construção do aquário em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, uma obra iniciada em 2011 a um custo estimado de 80 milhões de reais.

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Telejornal Hoje 9/12

Na segunda feira, 11 de dezembro, o telejornal Bom Dia Brasil, também da Rede Globo, apresentou uma notícia de quatro minutos sobre obras não concluídas em projetos habitacionais financiados pelo governo no Maranhão e Rio de Janeiro. No Jornal Nacional do dia 8/12 foi transmitida uma notícia sobre a alta do preço do gás de cozinha onde não foi checada a informação da Petrobras sobre comportamento instável do mercado internacional.

O fato serviu de justificativa para a estatal aumentar os preços em 68% desde junho de 2017. Teria sido importante verificar a oscilação das cotações internacionais para conferir se houve ou não base real para os aumentos. Também não foi dada nenhuma explicação capaz de nos ajudar a entender porque a Petrobras agora decidiu rever a política de aumentos de preços do gás de cozinha.

As três notícias reproduziram um mesmo padrão de tratamento jornalístico que vem se repetindo em todos os telejornais da emissora e que poderia ser definido como “preguiçoso”. O repórter abre a matéria dando ênfase ao desperdício, corrupção, desleixo ou politicagem que justificam o uso da expressão escândalo, cita números que dão vulto à denúncia, depois faz um “povo fala” editado de forma a mostrar a revolta da população, entrevista autoridades que geralmente anunciam que a obra será retomada, o serviço restabelecido e o problema corrigido. Quando algum acusado ou suspeito não é entrevistado, o repórter ou apresentador apresentam uma desculpa padronizada do tipo o suspeito não foi encontrado ou não retornou a ligação.

Para quem assiste, fica um vazio informativo porque o, ou a, repórter não foi checar os dados fornecidos pelos denunciantes e nem os que integram as explicações dos acusados. No caso do elefante branco do aquário de Campo Grande, não se explicou porque a obra parou, porque a construtora saiu do empreendimento, porque não houve processo judicial contra a empresa e por ai vai.

Estas e muitas outras perguntas ou dúvidas que ficaram na cabeça dos telespectadores deveriam ter sido respondidas pelo que se convencionou chamar de jornalismo investigativo, uma modalidade de tratamento de notícias que virou slogan de muitos jornais, revistas e telejornais como parte do marketing institucional para vender uma imagem de prestação de serviços ao leitor, ouvinte, telespectador ou internauta.

A prática do jornalismo investigativo tem ficado mais no terreno das boas intenções, com raras e honrosas exceções, do que na realidade do quotidiano dos jornalistas. A prática de checagem de dados, fatos e eventos com características de notícia não é uma rotina nas redações aqui no Brasil porque a pressa em ser o primeiro a dar a informação, ou os interesses da empresa acabam atropelando a preocupação com a investigação.

Lava Jato e o jornalismo investigativo

O caso da Operação Lava Jato é exemplar. Foram raríssimos as denúncias em que as redações foram confirmar afirmações e dados divulgados pelo Ministério Público, pela Polícia Federal ou por algum delator. Todas as informações foram repassadas direta e cruamente para o leitor ou telespectador, o que transformou os telejornais e seus repórteres em meros repetidores de material obviamente formatado segundo os interesses de quem o produziu. Lições básicas do jornalismo investigativo foram esquecidas.

Fazer jornalismo investigativo não é fácil, rápido e nem barato. Estas três razões são as principais responsáveis pela “preguiça” de muitas redações no trato de denúncias de escândalos de corrupção ou desleixo administrativo entre políticos e empresários. As redações estão trabalhando hoje com o menor número de profissionais já registrado na imprensa nos últimos 20 anos.

Assim é cada vez mais visível a existência de duas tendências opostas na produção jornalística, especialmente nos telejornais: menos profissionais para lidar com dados, fatos e eventos jornalísticos cada vez mais complexos por conta da multiplicidade e diversidade de fontes informativas especialmente na política e na economia. O resultado é um noticiário quase padronizado que em vez de ajudar na compreensão de fatos, dados e eventos, acaba gerando dúvidas e insegurança nas pessoas.

Os obstáculos à prática do jornalismo investigativo em todas as notícias que afetam o interesse público mostra a diferença de abordagens entre os executivos da imprensa e os profissionais do jornalismo. Quando o fator dinheiro entra em questão, como o alto custo de uma reportagem investigativa, sacrificam-se as normas e valores do jornalismo para beneficiar o fluxo de caixa das empresas.

Em tempos de crise, esta predominância dos interesses corporativos tornou-se ainda mais evidente com a redução dos espaços dedicados nos telejornais às informações de interesse público em favor de mensagens de marketing disfarçadas de notícia, especialmente sobre promoções, eventos, campanhas e projetos de interesse das empresas jornalísticas e seus patrocinadores.

Estas distorções comprometem gravemente a função social da imprensa num momento de muitas dúvidas na conjuntura nacional e intensificadas pelas incertezas geradas pela transição para a era digital no campo da informação jornalística. A imprensa falha num momento em que a notícia contextualizada e com veracidade confirmada se tornou quase que uma questão vital para milhões de pessoas.

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