O jornalismo local como necessidade básica da população

A inexistência, ou fisiologismo, de jornais locais em municípios médios e pequenos está diretamente ligada ao aumento da corrupção, ineficiência e elevação dos custos da administração local. Foi o que descobriu uma investigação acadêmica realizada nos Estados Unidos e que apontou também a elevação dos índices de impunidade entre prefeitos, vereadores e funcionários graduados envolvidos no recebimento de propinas e prática de concorrências fraudulentas.

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Ilustração

A conclusão da pesquisa mostra como o jornalismo é essencial na fiscalização das administrações públicas municipais num claro contraste com a realidade vigente na maior parte das cidades médias e pequenas aqui no Brasil, onde a imprensa local é administrada pelos seus donos como um negócio ou uma plataforma político/eleitoral.

O trabalho conduzido pelos professores Pengjie Gao, da Universidade Notre Dame, no estado de Indiana, e Chang Lee, da Universidade de Illinois, em Chicago, relacionou o fechamento de 27% dos jornais locais norte-americanos entre 2003 e 2014, bem como a redução em 35% na cobertura jornalística de temas comunitários, com o aumento de 120% nos custos financeiros da administração pública em 1,266 municípios pequenos e médios, nos Estados Unidos.

A conclusão é a de que sem um monitoramento imparcial e objetivo das prefeituras e câmaras de vereadores por jornais e jornalistas preocupados com a informação pública local, os administradores e legisladores tendem a ser tolerantes, e até mesmo cúmplices, de projetos, aquisições ou contratações sem o necessário exame de sua utilidade, urgência e adequação à realidade financeira do município.

Aqui no Brasil há uma carência enorme de dados sobre a atuação da imprensa no monitoramento das administrações municipais. A falta deste tipo de informação é um indicativo da falta de transparência na atuação da maioria dos prefeitos, gestores públicos e vereadores. Revela também como a imprensa local condiciona o monitoramento dos poderes executivos e legislativo aos interesses políticos e comerciais dos seus proprietários ou executivos.

Esta cumplicidade entre empresas jornalísticas e administrações municipais aqui no Brasil é um fenômeno antigo, mas que está ganhando uma importância crescente diante da crise financeira que atinge a maior parte dos jornais locais no país. Os custos de produção aumentaram, as receitas publicitarias caíram e o público, especialmente os mais jovens, migrou para a internet.

O projeto Atlas da Notícia afirma que 50 milhões de brasileiros vivem em “desertos informativos” , uma expressão usada para designar regiões onde não há nenhuma emissora de radio ou TV, os veículos de comunicação com maior penetração no interior do país. Isto significa que, no mínimo, 50 milhões de brasileiros tem pouca ou nenhuma condição de defender os seus interesses por falta de informações sobre como os prefeitos e vereadores administram a receita oriunda de impostos municipais, estaduais e federais.

No momento em que tantos políticos batem na tecla de que “é preciso passar o país a limpo”, o jornalismo local torna-se a arma mais eficiente nas mãos da população de cidades médias e pequenas no interior do Brasil para monitorar as ações de prefeitos e vereadores . A corrupção a nível politico, parlamentar e empresarial começa a ser desvendada em Brasília e nas capitais estaduais, mas no interior ela ainda está intocada graças a cumplicidade da imprensa local e à falta de transparência da maioria das administrações municipais.

A desertificação noticiosa

Os “desertos informativos” são uma ameaça aos moradores das pequenas e médias cidades do interior priva as pessoas de informações, a arma mais eficaz contra a corrupção. Além disso, a falta de um patrulhamento constante das administrações públicas favorece o autoritarismo e arrogância de prefeitos, vereadores, agentes públicos e empresários na prestação de serviços na educação, saúde, qualidade de vida e segurança.

A crise no modelo de negócios dos pequenos jornais ocorre justamente no momento em que as pessoas mais precisam de notícias isentas para tomar decisões pessoais e coletivas em pleno tumulto causado pelas multiplicação das fake news (informações falsas) e pela desinformação.

Nesta conjuntura, o combate à “desertificação informativa” passou a depender basicamente dos profissionais do jornalismo, uma vez que as publicações locais se tornaram estrategicamente relevantes diante da tendência mundial à regionalização e segmentação na produção de notícias. Segundo o consultor norte-americano Jeff Jarvis , o futuro do jornalismo depende da personalização do noticiário visando atender as necessidades de cada leitor.

A reorientação editorial dos jornais locais transformou-se numa pré-condição para o surgimento de novos paradigmas no exercício do jornalismo, bem como num pressuposto para a implantação da transparência e da participação cidadã na administração municipal. O jornalismo local não é um luxo para cidades pequenas e médias, mas uma necessidade básica da população.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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