O jornalismo diante da encruzilhada do ativismo informativo (*)

A cobertura jornalística da pandemia de Coronavírus está chegando a uma encruzilhada. Ela pode continuar basicamente factual, tornando-se repetitiva e chata, salvo se houver algum desdobramento espetacular e inesperado, ou terá que optar pelo ativismo social e pedagógico para induzir o público a assumir novos hábitos, regras e valores, associados às mudanças econômicas e comportamentais provocadas pela Covid-19.

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Protesto de jornalistas na India / Foto Pixabay- CC

Não é uma escolha simples porque ela mexe com alguns dogmas tradicionais na profissão, como a isenção e a ideia de que o jornalismo é apenas um observador da realidade e mensageiro de notícias. Mas o que estamos testemunhando é uma profunda alteração na relação entre nós, jornalistas e os nossos leitores, ouvintes, telespectadores ou interlocutores em redes sociais. A mudança começou há quase duas décadas com a popularização da internet, mas a pandemia mostrou de forma brutalmente clara como o jornalismo é parte do processo de transformações sociais, políticas, econômicas e culturais em curso no planeta.

A Covid-19 mostrou a urgência e amplitude da missão de fazer as pessoas entenderem a lógica da nova realidade imposta pela pandemia, onde a saúde de um depende de todos e vice versa. Quando eu não uso máscara ou participo de festas em ambientes fechados, eu posso me contaminar e contaminar depois toda a minha família. Por outro lado, quando vou ao supermercado ou ao banco estou confiando que as outras pessoas tomaram precauções para se proteger contra o vírus, porque elas podem me contaminar sem saber. É o conceito de confiança coletiva, algo escassamente praticado numa cultura individualista.

É o jornalismo através da imprensa e da internet que leva até as pessoas os dados, fatos e eventos na forma de notícias que podem provocar mudanças de comportamentos. Os governos e os especialistas fornecem estes dados e fatos, mas eles dependem de um repórter, editor, fotógrafo ou produtor de vídeo para que este material chegue ao seu destinatário final. É o jornalista que sabe, ou deveria saber, qual a melhor forma de levar dados, fatos e eventos relevantes ao conhecimento do público para que este consiga se adaptar às mudanças no seu quotidiano.

Na fase atual do combate ao Coronavírus, a preocupação com a forma de contar dados, fatos e eventos sobre a pandemia é crucial para que o público participe da luta contra o vírus. Não adianta nada divulgar dados e fatos se as pessoas não mudam de atitude. Por isto, o jornalismo precisa mostrar-se engajado com a realidade das pessoas para poder interagir com elas e transmitir mensagens de forma convincente.

Os governantes e especialistas costumam dizer que quando suas advertências e pedidos não são atendidos, a culpa é das pessoas que são burras, teimosas ou avessas à mudanças. Nenhum destes argumentos é válido para um jornalista. Se a narrativa jornalística não funcionou, o problema é do repórter, editor ou comentarista que não conseguiu o grau necessário de engajamento para tornar-se convincente. Neste caso, é essencial a autocrítica profissional porque não podemos nos dar ao luxo de deixar uma epidemia grassar livremente e nós só observando.

Defeito ou necessidade?

O ativismo jornalístico está deixando de ser um defeito para ser uma necessidade, especialmente quando questões como uma pandemia estão na agenda noticiosa. O jornalismo preocupado com o distanciamento em relação aos fatos e protagonistas é uma herança da cultura profissional desenvolvida dentro da preocupação comercial das empresas de comunicação em massa. Como elas dependiam e ainda dependem de anunciantes, a condição é não criar dificuldades para a captação de publicidade, o que impõem aos jornalistas assalariados a necessidade de não contrariar interesses, tornando as reportagens neutras e supostamente objetivas.

Mas hoje o modelo de negócios baseado na publicidade paga está em crise e a imprensa precisa apostar na fidelidade do público para ter receitas que garantam a sustentabilidade financeira na produção e publicação de notícias. Os donos ainda hesitam na opção pelo ativismo informativo porque ele obviamente impõe riscos políticos e comerciais, mas para um profissional que entende o papel transformador de uma notícia, a escolha é clara. O ativismo jornalístico também é conhecido por outros nomes como jornalismo cívico, jornalismo cidadão ou jornalismo de soluções. Os rótulos variam, mas todos coincidem na preocupação em orientar a produção informativa para as causas públicas.

O jornalismo ativista coloca em primeiro lugar a causa a ser promovida sem, no entanto, renegar os elementos que definem uma notícia, como exatidão, relevância, pertinência, confiabilidade e transparência. Sem estes elementos a notícia não é confiável e pode induzir as pessoas a falsas decisões. A opção pelo ativismo é uma decorrência da ampla diversificação na ecologia informativa provocada pela digitalização e pela internet. Com a massificação na disseminação de dados, fatos, eventos e notícias, o mais importante para as pessoas passou a ser a contextualização destes itens, ou seja, seu significado.

A avalancha informativa alavancada pela internet e pela digitalização criou condições para um debate inovador em torno do ativismo jornalístico, até agora visto mais como uma militância político-ideológica do que o exercício profissional do jornalismo. A base deste falso antagonismo entre ativismo e profissionalismo está na forma de ver o jornalismo. A profissionalização é um valor desenvolvido no contexto empresarial para justificar condutas explicitadas nos manuais de redação, os guias de produção industrial de notícias.

Jornais como O Globo e Folha de S.Paulo publicaram há dias editoriais com grande destaque onde assumiam uma posição em defesa da democracia e contra o governo Bolsonaro em ações que poderiam ser classificadas como ativismo político. É preciso aguardar mais algum tempo para saber se a atitude marca uma mudança na forma como ambos jornais veem o exercício do jornalismo ou se é apenas uma manobra política conjuntural para pressionar o governo.

(*) Texto publicado originalmente no

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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