O futuro de Brumadinho depende do jornalismo local

Go to the profile of Carlos Albano Castilho

O título deste artigo parece exagerado ou fora da realidade, mas se pararmos para pensar um pouco, ele ganha um significado e uma relevância que a grande imprensa nacional ainda não percebeu. A tragédia de Brumadinho monopolizou a agenda da mídia durante pouco mais de duas semanas, mas esta preocupação com cidade atingida por uma avalancha de resíduos da exploração de minério tende a diminuir gradualmente na media em que a imprensa passe a privilegiar outros temas na busca de audiências.

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Área inundada pela avalancha de lama em Brumadinho / Foto Wikimedia CC

É inevitável que todas as equipes de televisão, de rádio, correspondentes estrangeiros e repórteres de jornais do Rio e São Paulo abandonem a região e ai começará o segundo drama dos moradores de Brumadinho. A solidariedade foi intensa nos momentos de dor e perdas, mas ela dificilmente será a mesma quando os 40 mil moradores da cidade tiverem que enfrentar a reconstrução de suas vidas, seus negócios e sua cidade. A exemplo de outras cidades também atingidas por desastres, a dura realidade é que o recomeço acabará caindo sobre os ombros da população local.

A ajuda humanitária e a atenção aos desabrigados, órfãos e viúvas tende a diminuir em consequência da redução da cobertura jornalística da grande imprensa deixando os moradores de Brumadinho sem o apoio midiático necessário para pressionar empresas como a mineradora Vale e governos como o federal e o do estado de Minas Gerais. A principal consequência da orfandade midiática é a ausência de informações capazes de mobilizar a população e fornecer a ela as ferramentas políticas, financeiras e legais para recuperar o que foi perdido na avalancha de lama e rejeitos minerais.

O duplo papel da imprensa

O jornalismo local é insubstituível nesta função de prover a comunidade das informações necessárias para a reconstrução da cidade. A imprensa local cumpre um duplo papel em situações críticas como a de Brumadinho depois da avalancha. Por um lado ela viabiliza a interação entre as pessoas, permitindo a troca de informações, dados e fatos entre moradores para gerar conhecimentos que são indispensáveis na busca de soluções baseadas na realidade local. Por outro, profissionais do jornalismo residentes na cidade além do conhecimento local tem a capacidade de identificar experiências e localizar especialistas externos que possam ajudar a população a definir os rumos da reconstrução.

Os moradores de Brumadinho são a fonte privilegiada de informações necessárias para orientar os projetos de recuperação da cidade porque são os que a conhecem melhor do que qualquer outra pessoa. Mas na falta da troca de dados e conhecimentos, a população local acaba tendo que aceitar soluções produzidas por burocratas e especialistas com pouca ou nenhuma intimidade com os problemas do lugar. Especialistas forâneos com acesso à mídia nacional surgem como alternativa porque a população local não consegue desenvolver o seu próprio conjunto de conhecimentos, face à ausência de uma imprensa que opere o intercambio de dados, fatos e informações entre os moradores da região.

Para funcionar como plataforma de interação entre os moradores e como canal de acesso à informações e fontes externas, a imprensa local precisa assumir novas rotinas, normas e valores em relação ao seu público. A relação clássica de compra e venda de notícias não funciona mais porque as pessoas têm hoje acesso a todo tipo de informação pelas redes sociais na internet. Por outro lado o jornalismo comunitário precisa ser sustentável financeiramente porque a atividade voluntaria éuma grande solução em tempos de crise aguda e de curto prazo, mas tende a não funcionar quando se exige um esforço prolongado. A reconstrução de Brumadinho será um desafio de longo prazo por isto a imprensa local necessita de receitas que a tornem sustentável.

O binômio imprensa/população

Chegamos a um contexto onde fica clara uma dependência mútua entre população e imprensa, no local. A população precisa da imprensa para poder desenvolver as soluções que permitam a reconstrução da vida das pessoas e da cidade como um todo. Por outro lado, a imprensa local precisa que as pessoas contribuam material e financeiramente para o sustento de jornalistas e técnicos em comunicação.

A relação entre a imprensa local e os habitantes de pequenas e medias cidades é um tema que tem mobilizado dezenas de especialistas norte-americanos, como Josh Stearns e Joshua Benton, autores de trabalhos vinculando a reconstrução da confiança pública na mídia e a sobrevivência da democracia à existência de jornais de pequeno e médio porte centrados num agenda essencialmente local. Ambos trabalham com base em pesquisas acadêmicas mostrando como o relacionamento entre moradores passou a ter uma importância crítica na forma como as comunidades desenvolvem o seu capital social e seu cabedal de conhecimentos coletivos.

Emily Benson, a editora de um jornal no estado norte-americano do Alasca, verificou que a ausência, ou encolhimento da imprensa local, acentua a polarização política em cidades de pequeno e médio porte porque as pessoas já não trocam noticias entre si, mas passam a depender de informações publicadas na imprensa nacional, onde a tendência à partidarização do noticiário é predominante graças à concentração de interesses políticos.

Centenas de moradores de Brumadinho perderam suas casas, sítios, chácaras e lojas. A Vale promete doar até 100 mil reais para os afetados, mas esta soma não garante uma reconstrução completa do que foi perdido. Além disso, a economia da região foi, e será, duramente afetada pela queda de receitas municipais oriundas da mineração, comércio, agricultura, pecuária e turismo. Inevitavelmente os serviços públicos como educação, saúde, assistência social, saneamento e urbanismo serão também afetados. Com os estados e a federação enfrentando déficits orçamentários crônicos, não dá para esperar muita ajuda neste momento.

Atualmente, a Vale tenta limpar a sua imagem prometendo mundos e fundos aos moradores de Brumadinho, mas quando o desastre da represa da mina do Feijão deixar as manchetes na imprensa, a empresa inevitavelmente dará mais importância aos seus negócios do que às pessoas afetadas pela avalancha de rejeitos da exploração do minério de ferro. A partir deste momento, a imprensa local passará a ser a ferramenta mais eficiente para a população de Brumadinho reconstruir o seu futuro.

Originally published at medium.com on February 12, 2019.

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