O falso “bom jornalismo” e os guetos informativos contemporâneos

O acesso à informação num clima de radicalização ideológica passa a ser um ato de doutrinação e não de livre escolha, afirma Leonardo Sakamoto num post que nos leva a uma reflexão sobre o papel que nós jornalistas estamos desempenhando no atual cenário político, especialmente a nossa responsabilidade na polarização de opiniões entre leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Sakamoto analisa, com rara clareza, as distorções entre o que é considerado bom jornalismo e o que é rotulado como lixo noticioso, mostrando como o desvirtuamento de ambas as categorias é causa e consequência da transformação da atividade jornalística num instrumento de combate político.

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É grande o número de pessoas que qualificam como “bom jornalismo” aquele que fornece dados, fatos e eventos que justificam e promovem os posicionamentos políticos individuais ou de um grupo de indivíduos. “Mau jornalismo” seria aquele que contraria as vontades e atitudes destes mesmos indivíduos.

Trata-se de uma grosseira distorção do que está publicado nos manuais e livros sobre jornalismo ou citado exaustivamente no discurso de executivos e profissionais nos meios de comunicação. Mais preocupante ainda é o fato de que esta esdrúxula concepção de “bom jornalismo” pode acabar justificando a emergência de comportamentos políticos sectários, bem com frear o desenvolvimento da livre circulação de informações.

Quando a “boa informação” é aquela que justifica um ponto de vista, o desdobramento inevitável é a formação de guetos informativos reunindo pessoas que compartilham um mesmo conjunto de princípios, valores e notícias. A tendência natural dos guetos é a radicalização politica porque toda a informação que contraria as ideias do grupo é considerada um ato de agressão que precisa ser respondido.

Ameaças à diversidade informativa

Quando a notícia é usada como uma arma política, outra consequência previsível é o fim da diversidade informativa, um princípio básico no exercício da democracia e também um dos dogmas do jornalismo.

As empresas jornalísticas negam enfaticamente qualquer responsabilidade na formação dos guetos informativos, culpando sempre as redes sociais pelo surgimento da polarização noticiosa. Mas é público e notório que os principais veículos informativos do país adotam estratégias editoriais que beneficiam, de forma direta ou indireta, um dos lados em conflito como no caso da crise atual deflagrada por denúncias de corrupção no governo federal e Congresso nacional.

Não é necessário muito esforço para perceber este comportamento torna a maioria das empresas de comunicação e muitos profissionais do jornalismo corresponsáveis na distorção dos conceitos de bom e mau jornalismo, bem como no enfraquecimento da diversidade noticiosa.

Além disso, a dinâmica comercial dos meios de comunicação também funciona no sentido da identificação de sua estratégia financeira com a de segmentos sociais, políticos e econômicos que compartilham os mesmos objetivos e comportamentos. A imprensa acaba influenciando e sendo influenciada pelos guetos noticiosos.

Outro problema grave gerado pelo sectarismo informativo é a obstrução do livre fluxo de dados, fatos e notícias indispensáveis a produção de conhecimento, base da geração de capital social e do desenvolvimento de novos produtos na indústria, comércio, agricultura e serviços.

A diversidade noticiosa é o melhor antídoto contra distorções como a do “bom jornalismo “ e da formação de tendências informativas sectárias. A pluralidade informativa se transformou, na era digital, na base indispensável para a sobrevivência da democracia e um pressuposto obrigatório para o desenvolvimento econômico.

Quando há livre circulação de informações, ideias como as desenvolvidas no blog de Leonardo Sakamoto motivam reflexões como as que desenvolvi neste texto que, por sua vez, podem levar outros blogueiros a ampliá-las e aprofundá-las ainda mais.

Para mais detalhes sobre a relação entre jornalismo e produção de conhecimento, consulte John Wihbey (2016): Journalists’ Use of Knowledge in an Online World, Journalism Practice, DOI: 10.1080/17512786.2016.1249004

Para mais informações sobre livre fluxo de informações e produção de conhecimento, procure o livro “Informação, conhecimento e poder : mudança tecnológica e inovação social” , de Maria Lucia Maciel e Sarita Albagli (orgs) Download gratis.

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