O contágio do medo na epidemia de fake news sobre coronavirus

O noticiário das últimas semanas mostrou que o planeta enfrenta não uma, mas duas epidemias: uma está nas manchetes da imprensa sobre o novo coronavirus, a outra só é percebida por pesquisadores e estrategistas da comunicação. A enorme divulgação do avanço da doença alimentou o contágio do medo e o isolamento político da China. Já a segunda epidemia é silenciosa, avança muito mais rápido do que o coronavirus porque é alimentada pela viralização de notícias falsas e manipulação de informações com objetivos políticos e comerciais.

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Foto Wikimedia / Creative Commons

A epidemia da desinformação tem origem na globalização do temor de que o contágio ganhe proporções incontroláveis, o que já está alimentando posturas xenófobas em relação aos chineses, como mostram casos recentes em São Paulo, Estados Unidos e alguns países europeus. Cidadãos de origem asiática estão sendo discriminados por conta da suspeita de que possam ser transmissores do coronavirus, motivadas por notícias falsas em redes sociais.

Ainda mais perigosa é a discreta manipulação de informações promovida por alguns governos e políticos, como o presidente norte-americano Donald Trump, que insinuam uma conexão ideológica entre o governo comunista chinês e o coronavirus. As constantes referências ao fato de que a China tem um governo comunista altamente centralizado e a rapidez com que vários países pouco afetados pela doença, como o Brasil, decidiram retirar seus cidadãos do epicentro da epidemia indicam uma estratégia de isolamento da segunda potência econômica do planeta.

Paralelamente ao combate clínico do coronavirus em todo o mundo, está em curso uma guerra informativa cujas consequências podem ser ainda mais devastadoras do que o doença. Os chineses perderam dias preciosos no início da epidemia por razões políticas e também por desconhecimento da natureza do vírus. Mas depois, adotaram medidas drásticas incluindo a mobilização militar para fechar cidades inteiras e construir novos hospitais em questão de dias.

Do ponto de vista médico, até a Organização Mundial da Saúde admitiu que a China faz tudo o que pode ser feito para limitar a expansão do coronavirus. O país concentra 99% dos casos confirmados e todas as mortes, menos uma nas Filipinas. O contágio, no resto do mundo, ainda não chega a configurar uma tragédia global, mas apesar disto os governos estão tratando o caso como se fosse uma ameaça real e iminente, postura alimentada pela expectativa de que as consequências sociais e econômicas acabem por minar o avassalador desenvolvimento industrial dos chineses.

O antídoto para a epidemia da desinformação

Dentro da China, os desdobramentos da epidemia do novo coronavirus estão pondo à prova a política oficial de comunicação pública. Após um silêncio inicial, o governo de Pequim anunciou que seria transparente na divulgação do avanço da doença, mas isto acabou abrindo espaços para críticas e polêmicas, algo inevitável num ambiente de tensões provocadas pela multiplicação acelerada do número de casos de contaminação. O governo reagiu na segunda semana de fevereiro restabelecendo a censura nas informações sobre o coronavirus, mostrando que terá muita dificuldade para manter o controle oficial sobre a opinião pública chinesa.

Neste cenário a informação e a imprensa passam a ter um papel fundamental porque a epidemia do medo e a estratégia do isolamento da China dependem de veículos de comunicação. Neste contexto, mais uma vez o jornalismo passa a ter um papel crítico em matéria de transparência noticiosa. Mais importante do que ser contra ou a favor da China e de seus métodos de combate à epidemia, é identificar estratégias e objetivos ocultos nos dados, fatos e eventos divulgados por governos, inclusive o de Pequim.

O jornalismo tem um papel educativo ao disseminar conhecimentos e experiências capazes de reduzir o ritmo de contágio do coronavirus, mas para que esta função atinja os seus objetivos é indispensável que o material publicado seja confiável. Daí a crucial preocupação com a identificação de propósitos ocultos e notícias falsas.

Além de impedir o surgimento de uma pandemia mundial e concentrar esforços na pesquisa de vacinas, devemos dedicar atenção igual, ou maior, ao noticiário sobre o coronavirus, a segunda epidemia, porque seus desdobramentos podem se estender muito além da esperada cura da doença.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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