“O Brasil que eu quero” inaugura um novo estilo de campanha eleitoral

Na semana em que os partidos brasileiros começaram a escolher seus candidatos a presidência da República, os telejornais abertos da TV Globo praticamente ignoraram a conjuntura política nacional ao mesmo tempo em que muitos telespectadores passaram a ter a sensação de que a emissora terceirizou a cobertura eleitoral, através da série “Brasil que eu quero”.

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A atitude da Globo provoca uma serie de indagações porque a emissora é hoje um ator politico de primeira grandeza e todos os seus movimentos são estrategicamente calculados. Assim, o seu silencio grita nos ouvidos daqueles que acompanham o noticiário pré-eleitoral deixando no ar várias leituras possíveis.

A Globo sempre foi um protagonista central na arte de transformar uma campanha eleitoral numa competição comparada a uma corrida de cavalos. Mas será que agora ela resolveu virar as costas aos partidos, diante do impressionante crescimento dos adeptos do chamado “não voto”, eleitores desiludidos que não estão nem ai para os candidatos e legendas? Pode ser, mas é pouco provável, porque isto equivaleria a um rompimento com o establishment de Brasília.

Outra possibilidade é a de que a emissora tenha decidido esperar até uma definição mais clara do quadro sucessório presidencial diante da confusão atual reinante no cenário eleitoral, principalmente as incertezas geradas pela incógnita Lula. Mas isto não impediria que os telejornais registrassem os resultados das convenções, sem comentários e consultas a cientistas políticos.

Uma terceira hipótese seria uma original estratégia de recorrer aos telespectadores para que elas produzam um discurso político/eleitoral composto por centenas de opiniões pessoais, que podem livrar a Globo da incômoda responsabilidade de meter-se no pantanoso terreno do bate boca entre os candidatos, que tentam rotular o noticiário segundo as suas conveniências pré-eleitorais.

Esta última possibilidade enquadra-se bem no provérbio italiano “se non è vero, è bene trovato”, tradução: “se não é verdade, é bem achado”. Ou seja, pode não ser verdade, mas que é bem possível na atual conjuntura, lá isto é. Hoje em dia, as estratégias de comunicação política são bem mais sofisticadas do que no século passado quando predominavam as ferramentas baseadas na força e intimidação.

Uma campanha eleitoral em novo estilo

Quando centenas de brasileiros, que jamais pensaram em aparecer no Jornal Nacional, por exemplo, são selecionados para passar recados políticos sintonizados com o pensamento da emissora, o que fica para a massa de telespectadores é a impressão de que existe um consenso majoritário sobre questões que quase todos os partidos teimam em tratar segundo seus próprios interesses.

O discurso público que a Globo está construindo através da série “O Brasil que eu quero” procura sintetizar um conjunto de percepções que o brasileiro comum tem em mente mas que raramente conseguiu expressar porque não encontrou interlocutores adequados entre os políticos e governantes, e nem visibilidade direta na imprensa. Com o “Brasil que eu quero”, a Globo está se apropriando desta massa difusa e complexa de opiniões individuais e passa a ter uma relação própria com o eleitor, sem necessidade de bater cabeça com os candidatos e siglas.

Coincidência ou não, a Globo geralmente insere os depoimentos selecionados depois de alguma notícia sobre corrupção no governo, desperdício de dinheiro público ou criticas a deputados e senadores. O objetivo é destacar o contraste entre o que foi documentado em imagens e depoimentos, com o que os desejos dos brasileiros escolhidos para a série. A seleção é cuidadosa porque tem um foco bem preciso e descarta opiniões divergentes da meta da emissora.

O novo discurso politico, surgido fora dos quadros partidários, tem como base a crítica da corrupção em todos os níveis, a censura aos políticos, a condenação da ineficiência administrativa dos governos federal, estadual e municipal, bem como amargos protestos contra o desperdício de recursos públicos na saúde, educação e assistência social. São itens sobre os quais concordam quase 100% dos brasileiros, mas que os políticos preferiram transformar em peças de propaganda e recriminações mútuas, antes, durante e depois de eleições.

Resultado, as votações passaram a ser vistas pelos eleitores como eventos inócuos, agravando o distanciamento entre a base social e a elite dirigente do país. A expressão mais clara deste distanciamento é o fenômeno do “não voto”, reunindo os que anulam o seu voto, os que votam em branco e os que simplesmente ficarão em casa. Não será surpresa se este contingente de desiludidos chegar perto dos 40% do eleitorado.

“O Brasil que eu quero” é uma janela de visibilidade para estes desiludidos da politica nacional que se tornaram participantes involuntários de uma estratégia de comunicação eleitoral capaz de ampliar a influencia de um núcleo não institucionalizado de poder . Este é um dos resultados da nova conjuntura politica deste inicio da era digital , onde os partidos perdem força para movimentos sociais e novos centros de influência político eleitoral.

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