A campanha “O Brasil que você quer para o futuro” revela mais o que a TV Globo projeta como futuro desejável para o país do que a opinião dos 5.470 brasileiros que a emissora pretende colocar em seus telejornais até as vésperas das eleições presidenciais de outubro.

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Foto Divulgação TV Globo

Os temas abordados por quase 90% dos vídeos postados coincidem com a agenda da emissora configurando um caso exemplar do chamado “looping “informativo. As mensagens deixadas pelos telespectadores são majoritariamente baseadas nas que a Globo inseriu, há meses, na sua cobertura jornalística. Agora a emissora recolhe as idéias disseminadas e as usará para se posicionar como aliada do público.

É uma técnica de processamento de mensagens bastante usada em estratégias de comunicação política. Noticia-se um fato, dado ou preocupação a partir de uma determinada abordagem, gerando reações de apoio ou rejeição por parte do público. Em seguida, o posicionamento das pessoas é usado para justificar alguma iniciativa legislativa ou judicial.

O fato inovador na campanha “O Brasil que você quer…” está no uso de valores como moralidade pública, honestidade individual, ética política e corporativa, diversidade ideológica, étnica, religiosa e rejeição do racismo e respeito às opções sexuais, como ferramenta para moldar comportamentos eleitorais.

Até agora as mensagens da Globo , e de outras emissoras, priorizavam comportamentos e normas, a partir de dados e fatos noticiados em jornais e telejornais. Campanhas do tipo economize água, luz ou de vacinação, para citar alguns exemplos. A preocupação era com resultados quantitativos, mensuráveis na forma de números. Hoje, o alvo é mais amplo. Já não se busca mais apenas resultados concretos, mas a incorporação de valores, como se pode ver em campanhas do tipo “Menos é mais” ou “O importante é o respeito” .

A mudança de foco tem uma explicação concreta no fato de que hoje há uma enorme diversidade de dados e percepções a disposição do público, por conta da avalancha informativa na internet. Mesmo que uma emissora como a Globo quisesse dar visibilidade a toda esta diversidade ela não conseguiria por limitações de pessoal, tempo e equipamentos.

Trabalhar com valores passou a ser uma estratégia de comunicação qualitativamente mais sofisticada e eficiente porque induz o público a configurar o que os especialistas em cognição chamam de “mapa mental”. É um conjunto de informações acumuladas na memoria de uma pessoa ao longo de um período prévio de tempo e que servem de base para que a pessoa faça uma seleção dos dados e fatos mais recentes transmitidos pela imprensa.

A apropriação de agendas

Assim, um veiculo de comunicação, pode dar ao seu público uma abordagem parcial, descontextualizada ou enviesada de fatos ou eventos, mas as pessoas os receberão como se fossem a verdade, porque a emissora, jornal ou revista já está previamente posicionada como um porta-voz idôneo e associado aos mesmos valores defendidos por leitores e telespectadores.

No caso da campanha “O Brasil que você quer…” há ainda outro elemento responsável pela uniformidade de conteúdo na maioria das mensagens publicadas. É o fato de a Globo ter que selecionar o grande volume de material recebido, o que inevitavelmente leva à escolha de depoimentos que coincidem com as posições da emissora.

A soma de todos estes fatores resultará num aumento considerável da influência que a televisão terá na formação das opiniões dos eleitores durante a campanha eleitoral que começa oficialmente em meados de agosto. A Globo se antecipou aos partidos e candidatos na montagem do conjunto de valores que condicionarão o voto dos 146,5 milhões de eleitores brasileiros.

Esta sofisticada estratégia de condicionamento da opinião pública por meio da comunicação jornalística resulta na apropriação de agendas políticas, muitas das quais eram a marca ideológica de opositores e desafetos da emissora. Agendas como a luta contra a discriminação racial, contra a corrupção governamental, a desinformação, condutas empresariais antiéticas e abusos do poder eram da chamada esquerda e hoje foram incorporadas à imagem da Globo.

O que se percebe hoje é que com iniciativas do tipo “O Brasil que você quer”, a Globo acabou deixando a esquerda, sem agenda para as eleições de outubro deste ano, o que pode influenciar os resultados do pleito.

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