Newsletters criam novo modelo de negócios para jornalistas autônomos

O mercado mundial de trabalho no jornalismo assiste a um verdadeiro tsunami provocado pelo crescimento das plataformas digitais que dão aos profissionais a possibilidade de se tornarem seus próprios patrões sem necessidade de se preocupar com gestão financeira, questões jurídicas e marketing dos seus respectivos sites.

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Ilustração Pixabay / CC

Três start ups, (jargão tecnológico para novas empresas digitais) são as principais responsáveis pela popularidade de um próspero nicho de sustentabilidade do trabalho jornalístico autônomo e individual. As empresas , e produziram os mais recentes e promissores sistemas de remuneração do trabalho jornalístico, com possibilidade de abalar ainda mais o já combalido modelo tradicional de negócios na imprensa mundial.

A nova estratégia de monetização de reportagens, notícias, comentários e investigações jornalísticas baseia-se na produção de uma newsletter com conteúdo definido exclusivamente pelo seu autor. O conteúdo é comercializado através de assinaturas mensais, cuja gestão e suporte técnico são responsabilidade da plataforma que cobra um percentual variável entre 10 a 25% sobre a receita das assinaturas.

O uso de newsletters online para publicar notícias surgiu na virada do século quando empresas passaram a distribuir press releases por correio eletrônico, mas só começou a atrair a atenção de jornalistas depois que alguns programadores e empreendedores digitais descobriram como distribuir artigos, comentários e reportagens pela internet com pagamento garantido.

Casos de sucesso

A plataforma Patreon foi uma das primeiras a abrir o mercado de newsletters produzida por profissionais autônomos. Foi em 2013, quando dois músicos frustrados com as limitações da política de pagamentos do Youtube se aliaram a um grupo de programadores para criar o seu próprio site de divulgação de músicas compostas por eles. Sete anos depois de entrar no mercado, a plataforma reúne 200 mil criadores de textos, músicas e vídeos, acessados por seis milhões de usuários, que pagaram em 2019 um total de dois bilhões de dólares (pouco mais de 10 bilhões de reais) aos seus parceiros na produção de conteúdos.

A Patch Labs surgiu um ano mais tarde, também nos Estados Unidos, mas com um foco em jornalismo local. Hoje o site distribui newletters cobrindo 1.200 comunidades norte-americanas com noticiário produzido por jornalistas locais. Além disso tem um serviço especial de veiculação de boletins meteorológicos focados para clientes em 12 cidades nos EUA. No total a plataforma afirma ter mais de 30 milhões de visitantes mensais

Já a Substack é bem mais recente, pois foi criada em 2018, tendo como foco a comercialização de newsletters produzidas por jornalistas famosos como Glenn Greenwald, Andrew Sullivan, Matt Yglesias e Anne Helen Petersen que trocaram empregos altamente remunerados em empresas convencionais pela experiência de monetizar o seu próprio trabalho. O preço das assinaturas da Substack variam de cinco dólares (cerca de 25 reais) e 20 dólares mensais (cerca de 110 reais), o que dependendo da popularidade do autor por lhe dar uma renda anual de até 100 mil dólares (cerca de meio milhão de reais) .

A newsletter campeã de assinaturas na Substack é a conservadora , produzida por 10 jornalistas, cujo trabalho é lido por 100 mil assinantes e que só no primeiro ano de distribuição faturou dois milhões de dólares (pouco mais de 10 milhões de reais).

A formação de “nichos” informativos

O fenômeno das newsletters como plataforma jornalística para a veiculação de notícias, reportagens e comentários alimenta-se da crise na imprensa provocada pela drástica queda no faturamento publicitário e no aumento dos custos operacionais para produzir jornais, revistas e programação audiovisual. Só nos Estados Unidos, o mercado de trabalho para profissionais em empresas jornalísticas encolheu 40% nos últimos 15 anos. Quase 80% dos repórteres e comentaristas esportivos nos Estados Unidos tem hoje sua própria newsletter porque o mercado de publicações do ramo é hoje apenas ¼ do que era na década de 90.

Como modelo de negócios, as plataformas de newsletters jornalísticas estão atraindo cada vez mais profissionais por conta das vantagens na comercialização e suporte tecnológico. O problema é que neste sistema, os assinantes tendem a ser majoritariamente simpatizantes das ideias do autor, o que acaba levando à formação de guetos sociais, políticos e econômicos. A uniformização político-ideológica dos nichos de audiência, por sua vez, tende a polarizar e radicalizar posicionamentos no público, como demonstrou o cientista político Cass Sustein, em seu livro Going to Extremes.

A lógica financeira das plataformas baseia-se na combinação de dois fatores: o baixo custo da distribuição via internet e a possibilidade de micro pagamentos online por muitos assinantes. É muito mais fácil conquistar muitos assinantes pagando até 20 reais por mês do que captar clientes com mensalidades de R$ 65,00 pela edição impressa da Folha de São Paulo, por exemplo. A internet permite chegar a um número muito grande de possíveis interessados pagando pouco. São os micro pagamentos, o grande santo graal da internet.

Na imprensa convencional, os profissionais têm acesso a um público mais diversificado e com isto o feedback da audiência diminui a tendência à formação de guetos de leitores. Mas com a crise financeira e operacional dos meios impressos, os jornais, revistas, e até a televisão e emissoras de rádio, tornaram-se mais permeáveis ao ativismo político para aumentar audiências, mas ao mesmo tempo comprometeram a sua credibilidade e isenção.

Ainda é cedo para dizer se as newsletters jornalísticas por assinatura compensam financeiramente os seus autores, especialmente se eles são pouco conhecidos no mercado. Mas para as empresas, a perda de assinaturas famosas é um baque financeiro considerável, tanto que alguns jornais já admitem formar parcerias com as newsletters, pensando especialmente nos leitores mais velhos, pouco acostumados com a internet.

Jornais maiores estão lançando as suas próprias newsletters pagas, como é o caso do The New York Times que oferece 33 publicações do gênero cada uma com seu assunto específico e lidas por 14 milhões de assinantes. Hoje a receita global da edição digital e das várias newsletters é maior do que a da versão impressa.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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