Nós e a midiatização da política

O acompanhamento de eventos como a operação Lava Jato está criando uma oportunidade inédita para investigar o novo tipo de relação que passou a existir entre a imprensa e outras instituições da sociedade como a política e a justiça. Os limites entre as partes envolvidas tornaram-se tão nebulosos e entrelaçados que é cada vez mais difícil distinguir um segmento do outro.

Foto Enric Fradera / Creative Commons

Este é um fenômeno que está acontecendo também noutras áreas do conhecimento como ciência, cultura e esporte, que passaram a incorporar rotinas e valores da imprensa como, por exemplo, a manipulação da agenda de notícias para captar a atenção do público e a preocupação em formatar comunicados e entrevistas dentro das normas e horários mais convenientes para divulgação pelos veículos de comunicação.

Estes são alguns dos elementos essenciais no processo de midiatização, um conceito muito recente no vocabulário da internet, mas já usado, há mais de 20 anos, no meio acadêmico da Europa e dos Estados Unidos. De acordo com os principais pesquisadores, a midiatização mostrou que já não se pode mais estudar jornalismo sem verificar as consequências sociais, econômicas, políticas e culturais originadas pelo fato da imprensa ser o canal preferencial de todos os segmentos sociais na comunicação com o público.

O timing e o formato de grandes operações policiais, como no caso de prisões de suspeitos de corrupção, seguem um roteiro elaborado para atrair a atenção dos jornalistas usando elementos de ação, mistério e valores morais que são decisivos na seleção, pelos editores, do material a ser divulgado pelos telejornais. As cenas da chegada dos policiais, de madrugada, ao apartamento ou casa de um suspeito são claramente previstas e preparadas visando o maior impacto. A busca da atenção dos jornalistas é um passo obrigatório para captar a atenção do público.

As ações de campo na Lava Jato, inicialmente produzidas pela Polícia Federal visando impacto jornalístico na sua publicação pela TV passaram a ser imitadas pelas polícias civis e militares em quase todos os estados brasileiros. No caso dos jornais e revistas, onde a imagem não tem tanta importância, o instrumento principal é o vazamento de dados obtidos em interrogatórios ou nas buscas em casas ou apartamentos de presos. É possível detectar também um cuidado de policiais, magistrados e promotores ao selecionar os destinatários dos vazamentos para evitar privilégios e ciúmes.

As entrevistas coletivas organizadas após alguma operação relevante atendem à preocupação em transmitir autoridade e unidade, já que geralmente incluem representantes das instituições envolvidas na ação. Além disso, as coletivas são uma oportunidade para divulgar um volume de dados ou revelações suficiente para criar a sensação de fidedignidade, diante de uma plateia de repórteres que não dispõem de elementos para contestação ou questionamento.

O leitor cético

A midiatização das instituições policiais e judiciais, só para citar dois casos, alcança hoje também as redes sociais da internet onde os chamados influenciadores, indivíduos com muitos seguidores, repassam e opinam sobre eventos da agenda da imprensa ampliando o impacto das notícias na opinião pública.

Para se ter uma ideia da complexidade deste processo de entrelaçamento entre instituições no processo de comunicação é preciso levar em conta que a imprensa condiciona a forma pela qual as pessoas criam em suas mentes representações e opiniões sobre as notícias publicadas, mas também é condicionada por estas mesmas representações e opiniões. As redações sempre levam em conta o estado de espírito dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas ao decidirem o que terá maior ou menor destaque na hora de publicar uma notícia.

O que foi mostrado acima é apenas uma amostra limitada dos fenômenos vinculados à publicação de uma notícia, reportagem ou comentário na imprensa. O conhecimento destes fenômenos, um dos objetos de estudo da midiatização, é essencial para identificar processos e com isto dar às pessoas condições de sobrevivência no tsunami diário de informações publicadas nas mídias.

O conhecimento mínimo da inter-relação entre instituições no campo da comunicação pública é um item obrigatório na chamada alfabetização informativa, uma preocupação que começa a ser incorporada às nossas rotinas de leitura. O conhecimento daquilo que está associado à publicação de uma notícia deixa cada vez menos espaço para uma leitura despreocupada do jornal preferido ou para assistir um telejornal sem qualquer tipo de dúvida ou desconfiança.

“O crescimento do leitor cético” é o fenômeno identificado pelo pesquisador e professor argentino Pablo Bockzowski, da Northwestern University, dos Estados Unidos, na previsão encomendada pelo Nieman Lab para as principais tendências no jornalismo em 2018. O ceticismo do público foi detectado por Bockzowski numa pesquisa em que ele descobriu que os norte-americanos já começam a se preocupar mais com o que não foi publicado do que com o que foi impresso em jornais ou dito nos telejornais. Esta leitura nas entrelinhas é outro fenômeno novo na comunicação.

A soma de tudo o que foi dito acima mostra que os problemas e desafios do jornalismo não estão apenas dentro das redações ou limitados ao uso desta ou daquela tecnologia. Estão cada vez mais na forma como a imprensa influi e é influenciada pelos tomadores de decisões nas esferas do poder público e privado. O jornalismo se tornou co-responsável pelas consequências geradas pela midiatização.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store