Jornalismo participativo ou participação no jornalismo?

Estamos diante de uma nova modalidade de jornalismo ou enfrentamos o desafio de desenvolver uma nova forma de exercer uma profissão existente há mais de quatro séculos? A resposta não é simples e, dependendo do seu teor, vai implicar formas diferenciadas de produção de conteúdos (notícias, reportagens, artigos, crônicas e projetos multimídia) jornalísticos.

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Foto original Wikimedia /CC

Tanto no jornalismo participativo como nas práticas orientadas pelo conceito de participação no jornalismo, o público tem um papel muito mais proativo do que na imprensa convencional, existente antes da chegada da internet e dos processos digitais. As transformações em curso no jornalismo do século XXI apontam na direção de uma maior participação do público para compensar os efeitos negativos da avalancha informativa e da instabilidade gerada pelas incertezas financeiras tanto na imprensa convencional como entre os novos empreendedores digitais.

Modismos e inovações

A noção de jornalismo participativo surgiu como um modismo dentro da imprensa convencional quando algumas empresas passaram a incorporar contribuições do público na produção de noticias, como parte de uma estratégia de marketing para neutralizar a migração de leitores, ouvintes e telespectadores para blogs, redes sociais e sites noticiosos na internet. Redações formadas por jornalistas contratados por empresas jornalísticas controlam a incorporação de colaborações de não profissionais, também conhecidos como jornalistas amadores ou praticantes de atos jornalísticos.

Exemplos clássicos são as seções de comentários dos leitores, em sua maioria moderadas por membros das redações, as seções tipo Você é o Repórter, os vídeos e fotos enviadas por pessoas sem formação jornalística para publicações impressas e telejornais, bem como iniciativas como a formação de conselhos de leitores ou colunas de ombudsman.

Já o conceito de participação no jornalismo se baseia num leque amplo de possibilidades de produção de notícias e informações fora do controle centralizado de redações convencionais. Os adeptos desta forma de exercer o jornalismo tem como princípio a exploração das potencialidades informativas criadas pela internet. Esta opção implica trabalhar num ambiente inexplorado onde a margem de risco é grande, mas como enormes potencialidades futuras .

Quatro modelos

Segundo a pesquisadora finlandesa Laura Ahva, a participação no jornalismo pode ocorrer segundo, pelo menos, quatro formas diferentes:

a) Participação de indivíduos como produtores e usuários (produsers, no jargão norte-americano) de informações , caso típico de materiais jornalísticos disponibilizados por repórteres amadores, em blogs pessoais, Youtube ou redes sociais;

b) Participação através do jornalismo, quando indivíduos produzem textos, fotos e vídeos com características jornalísticas, mas vinculados e propostas sociais e econômicas;

c) Participação a partir do jornalismo, quando profissionais e não profissionais colaboram em pé de igualdade na definição de estratégias editoriais e produção de conteúdos informativos, como no caso de jornais comunitários;

d) Participação com jornalismo, quando pessoas ou movimentos usam textos, podcasts (noticias e comentários em áudio digital) e vídeos produzidos por jornalistas profissionais como ponto de partida para a promoção de debates públicos.

Jornalistas e não jornalistas assumem atitudes diferentes em relação ao tema participação conforme o professor e pesquisador Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova Iorque (CUNY). O professor afirma que os profissionais integrantes de redações em grandes veículos de comunicação têm poucas simpatias, as vezes, até hostilidade, em relação a participação do público na produção de notícias. Este tipo de atitude pode ser explicado pelo corporativismo e pelo principio vigente na maioria das redações de que os jornalistas sabem o que é bom para o público.

Desafios à participação

Já os produsers e jornalistas amadores veem na participação uma grande oportunidade para romper o monopólio dos profissionais na identificação do que é ou não é noticia. Mas esta expectativa enfrenta uma serie de problemas a curto prazo, resultantes do fato dos adeptos da participação no jornalismo terem que explorar um território desconhecido no campo da informação. Dificuldades como :

a) Definição de critérios de confiabilidade em dados, fatos e eventos;

b) Definição de critérios de noticiabilidade (é ou não é noticia);

c) Escolha do formato narrativo ( estilo pessoal ou impessoal)

d) Concorrência enorme entre produtores autônomos de informações jornalísticas;

e) Sustentabilidade financeira de projetos jornalísticos colaborativos.

A polêmica e as incógnitas sobre o futuro da participação do público no jornalismo ainda estão longe de acabar. O desenvolvimento de aplicativos para facilitar o acesso das pessoas à grande arena da comunicação já chegou a uma etapa razoavelmente avançada ao customizar e até personalizar o desenvolvimento de blogs, páginas Web, redes sociais verticais ( baseadas em interesses e comunidades específicas) e projetos multimídia.

A inexperiência e desconhecimento das pessoas comuns no trato com a informação criam condições para a proliferação de boatos, rumores, desinformação e notícias falsas. A desinformação e a descontextualização de dados, fatos e eventos também ocorrem na imprensa convencional, mas os novos projetos jornalísticos baseados na participação do público, além da credibilidade nas informações, precisam conquistar também a confiança de parceiros na área financeira. Isto não anula a inevitabilidade da participação de pessoas sem formação jornalística na produção de notícias, mas mostra que ela ainda vai demorar algum tempo para ser aceita sem grandes questionamentos.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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