Jornalismo online diante do desafio da sustentabilidade financeira

O jornalismo na era digital enfrenta agora o seu maior desafio desde que a internet e a computação revolucionaram a nossa forma de lidar com a informação. Até agora já foi possível desenvolver técnicas de redação, edição e produção multimídia adaptadas ao ambiente virtual. Novos softwares voltados para processamento de dados e automatização na publicação de notícias também já se tornaram rotineiros nas redações online. Mas o que até agora ainda não foi resolvido é como alcançar a sustentabilidade financeira para iniciativas jornalísticas.

Image for post
Image for post

As pesquisas sobre o tema estão apenas no começo. Os grandes jornais são os mais preocupados porque tem muito a perder, mas os mais afetados são os jornais locais e regionais porque sua gordura financeira é escassa ou inexistente. Tudo indica que a busca da sustentabilidade financeira em ambiente digital vai provocar mudanças radicais, algumas até inimagináveis, nas rotinas de jornalistas, administradores e publicitários de empresas de comunicação.

É um desafio enorme e que pode definir quem sobrevive e quem morre na batalha da transição dos modelos jornalísticos baseados numa única plataforma de publicação para o sistema de plataformas múltiplas (impresso e digital).

A questão fundamental na busca de novos modelos de negócio está no novo papel assumido pela notícia dentro da economia da informação. Na era industrial, a notícia era uma commodity negociável com produtos e serviços de empresas e governos interessados em acesso ao público. A notícia era o chamariz para a publicação de anúncios. Ela era muito valorizada porque era produzida por um número reduzido de empresas jornalísticas.

A crise no modelo de negócios da imprensa

A internet mudou tudo isto devido à super-oferta de dados, fatos e eventos publicados na rede mundial de computadores fazendo com que a notícia se tornasse um produto abundante, de fácil acesso e, consequentemente, seu preço comercial despencou até quase zero. O modelo de negócios baseado na troca de notícias por publicidade deixou de ser financeiramente atrativo, provocando uma crise na imprensa mundial, que ainda não foi resolvida.

Os anunciantes migraram para a internet atraídos pelo baixo custo das inserções publicitárias, criando uma situação muito complicada para jornais, revistas e a televisão. Os anúncios tradicionais, em queda, ainda são responsáveis pela maior parte da receita bruta responsável pela sobrevivência financeira da maioria dos veículos de comunicação enquanto a publicidade digital, em crescimento exponencial, não consegue garantir nem 10% do faturamento de um site de notícias na internet. O resultado é uma situação paradoxal em que um sistema em declínio passou a ser o responsável pela continuidade de projetos digitais em crescimento vertiginoso, mas que não conseguem sobreviver autonomamente.

Tudo isto indica que o sistema de publicidade usado na imprensa convencional não garante a sustentabilidade financeira de iniciativas online, o que levou pesquisadores e jornalistas a apostar no público como fonte de recursos. As experiências feitas nos Estados Unidos, Europa e Austrália mostraram que ainda não existe uma conclusão definitiva sobre a possibilidade mas os primeiros resultados indicam que não será uma alternativa simples porque ela implica consideráveis mudanças na cultura jornalística e empresarial.

O papel do público no jornalismo online

Primeiro porque o jornalismo terá que redefinir seu sistema de montagem da agenda noticiosa para incluir temas de interesse direto do público, reduzindo a prioridade dada atualmente à luta pelo poder político a nível mundial e nacional, ao jogo de interesses dos grandes grupos econômicos e às estratégias editoriais de cada veículo. Para redefinir a agenda noticiosa, os jornalistas terão que se envolver muito mais nas questões comunitárias, praticando o que no passado ficou conhecido como jornalismo cívico.

Também já se sabe que o sistema de assinaturas para acesso às notícias online não será suficiente para sustentar sozinho um veículo jornalístico. Há várias experiências em curso com o sistema de financiamento coletivo (crowdsourcing), mas esta modalidade só produz resultados compensadores quando oferece algo em troca ao visitante de um site noticioso. Dar prêmios só funciona em casos pontuais. A alternativa seria oferecer maior participação ao público na produção da página informativa, o que também gera a necessidade de mudanças de comportamento tanto dos jornalistas como dos colaboradores ou praticantes de atos jornalísticos (amadores).

Outra questão fundamental na busca da sustentabilidade jornalística online é a redefinição nas relações entre jornalismo e publicidade. Já parece claro que a separação rígida existente atualmente entre os dois segmentos profissionais terá que ser substituída pela colaboração. O publicitário só conseguirá mostrar para um cliente a eficácia de um anúncio online se houver uma audiência criada pela integração entre jornalistas e o público. Estudos feitos pela professora Penelope Abernathy, da Universidade da Carolina do Norte, mostraram que as receitas de jornais online aumentam quando há uma integração entre jornalistas, público e anunciantes centrada nos interesses da comunidade onde todos estão inseridos.

Fica fácil perceber que tudo aponta para um sistema de compartilhamento de informações por parte de jornalistas, público e anunciantes, o que constitui uma notável mudança em relação ao sistema vigente onde cada parte olha prioritariamente para o seu lucro. Parece uma utopia, mas os dados e fatos que estão surgindo das pesquisas e experiências dão a entender que ela não está tão longe assim de se tornar realidade.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store