Jornalismo não é mais um bom negócio

Ainda bem!!! Finalmente estamos começando a nos convencer que vender notícias não é a função principal do jornalismo. Isto tudo graças às tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs) que lograram reverter o espírito do jornalismo para a seu objetivo original: servir ao público.

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Não é uma mudança que vai acontecer da noite para o dia porque a comercialização da notícia está entranhada no modelo cultural predominante até agora. Não se acaba com um sistema como este por decreto e nem usando a repressão. Mas o ritmo de falências, desativação ou mudança de ramo na indústria jornalística mostra que um novo paradigma já está sendo construído.

A grande mudança no jornalismo está na relação entre os produtores e consumidores de notícias, o que vai exigir uma série de novas atitudes, regras e valores da parte do público em geral. As pessoas terão que pagar pela notícia não mais como uma assinatura ou uma transação comercial, mas como uma adesão ao jornal, revista, site, programa radiofônico ou telejornal.

Várias iniciativas atuais já usam este princípio por meio do qual você paga pelo acesso a um determinado veículo porque acha que ele é importante, necessário e confiável. É o caso de projetos como Intercept, Agência Pública, plataforma Medium, por exemplo. Paralelamente temos os casos típicos de assinatura e venda de acesso como o praticado por jornais, revistas e canais fechados de notícias. Nestes não há adesão e nem identificação, mas sim uma transação comercial de compra e venda.

A crescente diversificação de interesses, desejos e necessidades do público e a facilidade de produção digital de conteúdos noticiosos específicos para cada tipo de usuário, alimenta a nova área de projetos informativos. Eles apostam numa nova atitude diante do jornalismo (adesão) e o consequente desenvolvimento de novas regras e valores, capazes de assegurar a sustentabilidade financeira e gerencial do projeto.

A “vaquinha” digital

Regras como sistemas de crowdfunding (financiamento coletivo) ou vaquinhas online; permutas de conteúdo, clubes de leitores e prestação de serviços. A lista vai crescer porque há centenas de experiências de captação de recursos para financiamento de produções jornalísticas em andamento no mundo inteiro. Como toda exploração de áreas desconhecidas, o índice de erro ainda é maior do que o de acertos, mas cada iniciativa que dá certo, alavanca a consolidação de novos procedimentos.

A maior inovação está nos valores que começam a ser desenvolvidos a partir das novas experiências de sustentabilidade financeira do jornalismo. Agora a relação entre o profissional e o público é muito mais direta do que na era dos veículos intermediários como jornais, revistas, sites e programas jornalísticos na rádio e TV. A cobrança é direta e o profissional sabe que sua sobrevivência e a do projeto no qual está envolvido não dependem mais de um patrão, mas do leitor, ouvinte ou telespectador.

Nós, jornalistas, também dependíamos do público na era analógica da imprensa, mas no meio havia a empresa que determinava os comportamentos dos seus profissionais. Era ruim porque havia a dependência do pagamento de salários, mas, ao mesmo tempo era bom, porque a empresa protegia o profissional que seguia as regras corporativas. Agora, não existe mais exploração direta, mas em compensação não há mais proteção, como mostram os casos de “guerra jurídica” promovida por organizações acuadas por denúncias de jornalistas independentes (caso das ações judiciais em série promovidas por igrejas evangélicas contra vários jornalistas).

O jornalista operário da informação e peça de uma linha de produção de notícias está cedendo lugar a um profissional engajado em comunidades sociais com a função específica de investigar dados, fatos e eventos considerados relevantes, confiáveis, pertinentes, exatos e atuais e submetê-los a um processo de contextualização e formatação para distribuição a um público parceiro.

Este público usará estes insumos informativos como matéria prima para a tomada de decisões individuais e coletivas. Está caracterizado um serviço de utilidade pública cuja permanência exige sustentabilidade financeira contínua baseada em pessoas e não mais num negócio.

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