Jornalismo fora da zona de conforto

Um dos maiores dilemas do jornalismo contemporâneo, especialmente aqui no Brasil, é testar novos formatos narrativos. E quando falo de jornalismo não estou me referindo apenas aos profissionais que trabalham em redações, mas também às pessoas que leem, ouvem ou veem notícias, porque a tendência é haver uma relação cada vez mais próxima entre um lado e o outro.

Os manuais de redação jornalística consagraram fórmulas de apuração, redação, edição e publicação de notícias que estão se tornando obsoletas por conta da acelerada expansão da multimídia e das redes sociais pela internet. Hoje, as notícias de impacto raramente chegam primeiro às pessoas pelos jornais e revistas impressos.

Esta nova situação deveria, obviamente, provocar mudanças imediatas na apresentação das notícias em veículos impressos e até mesmo nos telejornais e boletins noticiosos radiofônicos. Mas não é isto que acontece na maioria dos casos, porque os profissionais da imprensa resistem a uma saída da zona de conforto criada pelas rotinas de trabalho e pela insegurança inerente a qualquer experiência em algo novo e portanto desconhecido.

A questão da credibilidade informativa é hoje talvez o maior desafio à manutenção da zona de conforto criada pelo hábito, quase secular, de reproduzir declarações de fontes ou nas descrições de apenas um repórter, fotógrafo ou cinegrafista. É um desafio porque uma única visão não consegue mais dar conta da complexidade da diversidade de percepções de um mesmo dado ou fato de interesse público.

O leitor foi educado durante décadas a esperar da imprensa o suprimento diário de notícias capazes de ajudá-lo a tomar decisões. Ele se tornou um personagem passivo pela inexistência de tecnologias que permitissem uma interação rápida com os autores das notícias e com outros leitores. A internet e os computadores mudaram tudo isto e o resultado é que também o público está sendo levado a rever comportamentos, como descobriu recentemente o centenário jornal norte-americano Christian Science Monitor.

O Monitor começou uma experiência pioneira em matéria de saída da zona de conforto, bem como na produção e consumo de informações, ao abandonar o estilo convencional de apresentação baseado na técnica de começar pelo mais importante numa notícia, seguido por um relato sequencial. A nova fórmula coloca dúvidas para o leitor, ao apresentar várias visões e opiniões de um mesmo fato, dado ou evento, em vez de levar ao público uma notícia formatada segundo as normas e políticas do veículo de imprensa.

O experimento está numa fase preliminar e ainda não dá para fazer um julgamento do novo formato noticioso. A leitura do jornal online ou da edição impressa semanal revelam que não há uma uniformidade de apresentação e de narrativas. A ruptura com o modelo convencional de narrativa jornalística sequencial e hierárquica provoca insegurança entre os jornalistas diante da necessidade de ouvir um número grande de fontes com posições diferentes.

Isto implica mais conhecimento do profissional para poder avaliar as divergências, tempo para ouvir as partes e principalmente para contextualizar cada posicionamento. Fica claro que a publicação não poderá ser imediata, que haverá necessidade da formação de grupos de profissionais para dar conta da diversidade de entrevistas, fotos e filmagens, ou então recorrer a dados fornecidos por leitores.

Estes, por sua vez, perderão a tranquilidade de consumir passivamente informações entregues por um jornal, revista ou telejornal para filtrar e analisar material produzido por vários veículos e mais o que é publicado por blogs, páginas noticiosas online e redes sociais virtuais.

O que o Christian Science Monitor está tentando é antecipar o que todos nós teremos que fazer mais cedo ou mais tarde, saindo da zona de conforto para viver o caos informativo da era digital.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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