Jornalismo: discurso ou conversa?

A pergunta coloca em questão duas posturas antagônicas no exercício do jornalismo. Uma, tradicional, resultante da estrutura industrial e mecânica na produção de notícias, e a outra, surgida dentro do contexto da internet e da digitalização. São dois momentos do jornalismo onde a mudança de princípios, rotinas e valores marca as diferenças entre duas eras da comunicação entre indivíduos e grupos sociais.

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Conversation (Conversa) quadro de autor desconhecido pertencente ao acervo do National Archives and Records Administration (NARA) , dos Estados Unidos

Até agora, o jornalismo era basicamente uma atividade discursiva, ou seja, um repórter, comentarista ou editorialista falava para muitas pessoas sem que fosse possível uma participação significativa do público receptor. Predominava a fórmula um para muitos, resultante da estrutura de produção de notícias baseada na necessidade de enviar uma mesma mensagem para o maior número possível de receptores.

A estrutura industrial das empresas jornalísticas impunha uma relação unidirecional e verticalizada, onde a reação do público estava restrita à publicação seletiva das cartas enviadas por correio às redações ou então às pesquisas de opinião limitadas no tempo e no espaço também por questões técnicas e operacionais. Isto acabou gerando um distanciamento olímpico das redações em relação ao público e uma aproximação cada vez maior dos jornalistas com os tomadores de decisões na área governamental e empresarial.

Este conjunto de comportamentos, normas e valores foi colocado em questão com o surgimento de inovações tecnológicas, como os computadores e a internet, responsáveis por mudanças radicais na estrutura de funcionamento da imprensa e consequentemente no exercício do jornalismo. A mais importante das mudanças é a queda brutal das barreiras econômicas ao ingresso de pessoas comuns no mundo da comunicação midiática.

Na era industrial só grandes investidores tinham dinheiro para montar uma gráfica, criar um jornal, rádio ou televisão. Na era digital, o custo do bilhete de ingresso na arena da comunicação caiu vertiginosamente. Basta ter um computador e acesso à internet para que o indivíduo se transforme num praticante de atos jornalísticos, ou seja, captar, publicar e disseminar dados, fatos e eventos capazes de despertar o interesse coletivo.

Esta inédita interatividade, aliada ao surgimento da chamada avalanche noticiosa, acabou alterando todo o ambiente informativo e determinando mudanças nas rotinas, regras e valores no exercício do jornalismo. Entre todas estas mudanças vou destacar aquela que provocou a necessidade de um novo tipo de relacionamento entre jornalistas e seu público.

Num ambiente onde há super-oferta de notícias pela internet, os fatos e dados passaram a ter muitas versões, já que diferentes testemunhas, protagonistas e interessados podem publicar suas percepções e opiniões por meio de blogs, redes sociais, micro-mensagens, vídeos, fotos e correio eletrônico. Distinguir o que é verdadeiro do que é falso transformou-se num processo complexo onde é muito difícil chegar a posturas definitivas na análise de dezenas e até centenas de percepções e opiniões diferentes.

Nestas condições, ficou quase impossível para os jornalistas decidirem individualmente o que é certo ou errado. Cada vez mais os profissionais estão descobrindo que precisam da ajuda de seus leitores para obter mais dados ou fatos sobre eventos de interesse jornalístico, especialmente no que se refere à contextualização das notícias. Quanto mais participação de outras pessoas, maior a capacidade de um repórter, editor ou comentarista evitar erros factuais ou de enfoque.

As resistências à mudança

Na era digital, a função principal do jornalista já não é mais produzir notícias, mas sim produzir conhecimento por meio da análise, interpretação e contextualização de dados, fatos e eventos. Os pesquisadores do conhecimento são unânimes em afirmar que ele só pode ser produzido se houver a recombinação de dados fornecidos por vários indivíduos. É um trabalho coletivo por natureza e é aí que surge a conversa entre o jornalista e a comunidade de pessoas que leem, ouvem ou visualizam uma informação jornalística.

O relacionamento com o público rompe o distanciamento entre profissionais e as audiências, mas ao mesmo tempo exige de ambos os lados uma alteração de comportamentos. Ainda é grande o número de profissionais que resiste à mudança porque muitos deles sentem-se patrulhados, cobrados e até ameaçados por leitores que discordam do teor de uma reportagem ou artigo de opinião. Há também problemas concretos como a falta de tempo para dialogar com o público e ao mesmo tempo produzir reportagens.

Cada veículo jornalístico está tentando lidar com estas questões de forma especifica, ou seja, sem uma regra geral. Alguns eliminaram a participação do público, outros adotaram a moderação para evitar a publicação de mensagens violentas ou agressivas e uma minoria preferiu o diálogo como forma de educar leitores, ouvintes e telespectadores a agirem coletivamente sem recorrer a atitudes sectárias ou xenófobas.

A última alternativa é a mais demorada, complexa e que exige uma maior ruptura dos jornalistas com suas rotinas da era pré-internet. Mas é também a que fornece resultados mais significativos em termos de aumento da audiência, fidelização do público e agora também na sustentabilidade financeira de veículos jornalísticos. O aumento da audiência e a fidelização resultam da intensificação do sentimento de ser ouvido pelo jornal, rádio, TV ou página web, e de pertencer a um grupo de pessoas compartilhando informações, desejos e necessidades.

A conversa entre jornalistas e o público no processo de produção de notícias é um assunto bem mais complicado do que foi apresentado aqui neste texto. Eu também preciso aprender mais sobre ele e a melhor forma de fazer isto é conversando com você leitor. Mande um comentário para iniciarmos nosso bate-papo.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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