Internet: Depois do otimismo tecnológico, surge agora o medo do futuro

Tim Berners-Lee, o cientista britânico ao qual se atribui a criação da internet já não exibe mais o mesmo otimismo sobre o futuro da rede de computadores que ele, há 26 anos, classificou como o prenúncio de uma “nova era para a humanidade, baseada no fluxo livre e igualitário da informação”. Três décadas de história da Web foram suficientes para mostrar que o sonho de Sir Berners-Lee , ainda não se transformou num pesadelo, mas já não inspira mais a mesma excitação e entusiasmo dos que apostaram num nirvana digital.

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Ilustração Pixabay / Creative Commons

Até agora, o espirito predominante na internet era o de uma excitante aventura nos territórios desconhecidos e inexplorados da tecnologia digital e da internet. Mas a medida que a rede cresceu, expandiu-se e se transformou numa ferramenta usada por dois bilhões de indivíduos, foi ficando cada vez mais claro que as mazelas humanas também haviam se instalado no mundo virtual dos bytes e bits.

O realismo científico dos criadores da internet os levou a alertar que a rede englobava os aspetos positivos, negativos e repulsivos da humanidade. Mas nem de longe eles puderam prever que em 30 anos os internautas, os usuários do espaço virtual, estariam assustados e desorientados pelos efeitos da proliferação das chamadas “fake news” (notícias falsas), inseguros diante a perspectiva de uma polarização político/cultural e preocupados com o aumento do poder de grandes corporações digitais.

Como se isto não bastasse, estamos sendo atropelados por um exército de robôs eletrônicos movidos por algoritmos que ameaçam comandar nosso quotidiano. Os teóricos que num primeiro momento foram os grandes estimuladores de um mundo novo, agora estão sendo substituídos pelos ciber-céticos, como o francês Eric Sadin, autor do livro La Siliconizacion du Monde: L’Irrésistible expansion do libéralisme numérique ( A siliconização do mundo: O irresistível avanço do liberalismo digital — ainda não traduzido no Brasil).

O próprio Berners-Lee, que nos anos 90, proclamou o início de uma nova era de liberdade nas comunicações, na economia e nas relações humanas, sugeriu em março último a regulamentação da propaganda política na internet para evitar um descalabro ético na batalha entre partidos e movimentos sociais. O que ocorreu na campanha eleitoral americana de 2016 mostrou até onde a manipulação informativa pode chegar e como é fácil distorcer as percepções da realidade através da desinformação e das notícias falsas.

Dilemas complexos

Quem já estava assustado com as mudanças reais ou previstas em consequência da generalização do uso das novas tecnologias sentiu-se reconfortado pela verdadeira avalancha de livros e vídeos lançados desde o começo de 2017, quase todos eles batendo na tecla da necessidade de colocar a “besta digital” sob controle, especialmente as Frightful Five (As cinco assustadoras) , Facebook, Google, Twitter, Amazon e Apple. Estas empresas, antes admiradas mundialmente pela avalancha de novidades tecnológicas, agora são temidas pelo poder que passaram a ter sobre nossas vidas graças a inovações como a inteligência artificial, computação em nuvem, internet das coisas e ao fantástico acúmulo de dados em instituições privadas movidas pelo lucro.

Uma pesquisa do instituto Pew Research Center, divulgada no mês passado, revelou que 70% dos norte-americanos estão muito assustados com a possibilidade de ficarem desempregados como resultado da automação dos processos industriais promovida pelas novas tecnologias digitais. Já a geração que tem hoje entre 25 a 35 anos, teme as consequências físicas e mentais das transformações em curso no planeta, segundo pesquisa da Associação Norte-americana de Psiquiatria, citada pelo jornal The New York Times. E 21% dos usuários do Facebook estão pensando em abandonar a rede por que já não acreditam mais nas garantias da empresa sobre a privacidade de dados pessoais, de acordo com pesquisa do site Quartz Media LLC.

O que está acontecendo com muita gente, especialmente os jovens que embarcaram no sonho digital, é um solavanco de realismo. Se por um lado, o nirvana digital não se consumou, por outro também não estamos entrando num inferno cibernético. Esta não é a primeira vez na história da humanidade que uma inovação tecnológica provoca tsunamis na política, economia, cultura, vida social e, especialmente, na ciência. Já aconteceu há 500 anos quando Johannes Gutenberg inventou uma maneira fácil de imprimir textos e o mundo nunca mais voltou a ser o mesmo. A gráfica do ourives alemão deu origem à imprensa, ao protestantismo, ao capitalismo, às universidades, ao renascentismo cultural e às descobertas marítimas.

Nós ainda não conseguimos vislumbrar até onde vão as consequências das TICs, mas intuímos que muita coisa ainda vai mudar, tanto para bem como para mal. Acontece que as transformações estão acontecendo mais rápido do que a nossa possibilidade de compreendê-las, e principalmente controlá-las. Tudo isto nos coloca diante de dilemas complexos e como era natural, está virando moda um retorno aos velhos e bons tempos, em busca de segurança e previsibilidade. Mas segundo o tunisino formado na França e residente atualmente no Canadá, Pierre Lévy, um dos filósofos mais respeitados da era digital, é inviável uma volta ao passado. O nosso´principal desafio agora é achar o equilíbrio entre o novo e o velho, mais adequado à nossa realidade individual. Segundo Lévy, a grande novidade dos tempos modernos é que teremos que achar nossa fórmula de vida por conta própria.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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