Imprensa: A agonia do “quarto poder”

Parece paradoxal e contraditório afirmar hoje que a imprensa como quarto poder político está com seus dias contados. Mais do que nunca, aqui no Brasil, sentimos os jornais, revistas e telejornais darem o tom da cobertura política da crise gerada pelas denúncias de corrupção. Está cada vez mais evidente que a imprensa, investigadores da Lava Jato e os órgãos de repressão policial atuam sincronizadamente visando condicionar o posicionamento do público.

Image for post
Image for post
Foto Wikimedia/ CC

Mas se olharmos um pouco além do quotidiano atual, veremos que as bases sobre as quais se apoia o poder político da imprensa estão se deteriorando rapidamente diante do impacto das mudanças radicais na rotina informativa da maioria das pessoais, especialmente no meio metropolitano.

A imprensa conquistou o status de instituição política depois do surgimento da comunicação em massa, no século XIX, quando as grandes rotativas baratearam o custo unitário de jornais e revistas, levando informações a um número crescente de pessoas cujas opiniões passaram a ser condicionadas pelo fluxo de notícias jornalísticas. O caráter massivo da produção noticiosa foi intensificado mais tarde pela expansão das redes de rádio e televisão.

Neste ambiente de circulação massiva de informações, a imprensa era o único canal capaz de lidar com grandes volumes de noticias, tanto em velocidade como em alcance populacional. Tornou-se assim o meio ideal e obrigatório para o fluxo de mensagens informativas entre tomadores de decisões (governos, empresas e instituições civis ou militares) e os cidadãos em geral.

A imprensa tornou-se a gestora da atenção do público porque a sua lógica operacional estava, e ainda está em muitos países, orientada no sentido de chamar a atenção das pessoas para o material informativo que ela publica. A gestão do interesse do público está também vinculada a uma necessidade financeira, pois ao atrair a atenção das pessoas, a imprensa atrai também a publicidade paga, que é responsável por quase 80% das receitas operacionais da maioria das empresas jornalísticas.

A crise do sistema midiático

Pois bem, tudo isto começou a ser desmontado com o surgimento das novas tecnologias de comunicação e informação (TICs) quando os jornais, revistas, emissoras de rádio e TV deixaram de ser os canais exclusivos para transmissão de informações ao público. As pessoas passaram a publicar informações e opiniões na internet, ao mesmo tempo em que os governantes, políticos, empresários e instituições civis e militares, iniciaram uma comunicação direta com o público.

Além disso, a imprensa que sempre cobrou vigorosamente a transparência nos governos, empresas, parlamentos, justiça e instituições civis e militares, porque isto garantia notícias com as quais alimentava a atenção do público, passou a ser também cobrada pelo público interessado em conhecer detalhes de um segmento empresarial cujas finanças, posicionamentos políticos e estratégias comerciais sempre foram encobertas por um denso sigilo.

A crise atual na maioria dos jornais do mundo inteiro não é apenas causada pela queda das receitas publicitárias geradas pela migração dos anunciantes para a internet e pela redução continuada nas vendas avulsas e assinaturas. É também a consequência de mudanças estruturais como as mostradas acima e cujos efeitos tendem a ser permanentes porque a combinação entre digitação e internet é irreversível. Os proprietários e executivos na indústria da comunicação em massa estão diante deum dilema para o qual ainda não encontraram uma resposta que preserve seus interesses corporativos. É uma nova era, assim como as geradas pela industrialização e a globalização econômica.

A imprensa está perdendo a capacidade de gerir sozinha os rumos e a natureza das atenções do público, o que debilita seriamente a sua autonomia na hora de negociar com governos e empresas o seu papel político nas conjunturas locais, nacionais e internacional. É claro que os grandes grupos midiáticos tratam de encobrir esta realidade para tentar retardar a tomada de consciência do público sobre a mudança do quadro de relações institucionais da imprensa. Alguns adotaram a estratégia de adiar ao máximo o reconhecimento da perda de poder político num esforço para ganhar tempo e adaptar-se à nova realidade. Outros conglomerados midiáticos resistem por puro conservadorismo e medo da mudança. Estes últimos dificilmente sobreviverão.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store