Humanos versus algoritmos na batalha das fake news

Todo mundo condena as notícias falsas (fake news) e a desinformação, mas a unanimidade desaparece quando se discute quem decide o que é confiável ou não no noticiário da imprensa. Aqui no Brasil e em boa parte do resto do mundo, a maioria dos magistrados, legisladores e governantes está jogando esta delicadíssima tarefa nos braços dos jornalistas.

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Mas a transferência de responsabilidades está longe de ser uma solução minimamente razoável para um problema que desafia a capacidade dos jornalistas de estabelecer o que é verdadeiro e o que é falso em matéria de notícias. A complexidade da questão pode ser notada nas contradições entre as pesquisas feitas por respeitáveis instituições acadêmicas sobre a credibilidade informativa.

Um estudo divulgado há semanas pelo Instituto Gallup e pela Fundação Knight, ambos dos Estados Unidos, revelou que a grande maioria dos 2.000 participantes da pesquisa leu notícias consideradas confiáveis, por jornalistas, quase três vezes mais do que o total de pessoas que leram notícias marcadas como não confiáveis. Mesmo assim, 44% dos consultados admitiram que compartilharam notícias não confiáveis entre seus amigos e parentes.

Em compensação, o também renomado Centro Tow, da Universidade de Columbia, divulgou em junho, um trabalho revelando que os jornalistas contratados pela empresa Apple para certificar a credibilidade de notícias publicadas na imprensa dos Estados Unidos e da Inglaterra mostraram uma clara tendência por dois grandes jornais. Os curadores humanos da newsletter do projeto Apple News, especializada em recomendar notícias confiáveis, concentraram suas atenções nos jornais The New York Times e Daily Telegraph (britânico) deixando de lado publicações regionais e locais em ambos países.

Este marcado viés na seleção de fontes acabou provocando uma polêmica entre as empresas Apple e Facebook a propósito do papel dos curadores eletrônicos na avaliação da credibilidade de notícias. A rede social alega que os algoritmos (robôs eletrônicos) não podem ser descartados como uma ferramenta eficiente no combate à desinformação na internet. O bate boca entre as duas gigantes do mundo cibernético na verdade tem a ver mais com negócios do que com tecnologia, pois a rede Facebook aposta nos algoritmos enquanto a Apple busca um diferencial com seus curadores humanos.

A polêmica sobre como combater as fake news mostra que o tema está longe de uma solução imediata como gostariam os magistrados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre quem recai a responsabilidade legal de impedir a proliferação de notícias falsas na campanha política para as eleições presidenciais de outubro, aqui no Brasil.

Centralizar ou descentralizar

A avassaladora diversidade e velocidade com que são disseminadas as notícias pelas várias plataformas de comunicação social na internet inviabiliza um controle humano centralizado na certificação de credibilidade. Os algoritmos de curadoria de notícias conseguem ser mais rápidos e eficientes na varredura eletrônica do noticiário digitalizado, mas eles são programados por humanos, logo podem incorporar eventuais distorções e vieses de seus programadores.

A polêmica entre tecnologia e conhecimento na questão das notícias falsas é apenas um dos muitos pontos complexos na abordagem do problema da credibilidade nas informações online. A experiência humana na garimpagem de notícias ganha longe dos algoritmos quando se trata de tranquilizar leitores, ouvintes, telespectadores e internautas sobre os conteúdos informativos que eles recebem. Mas por melhor que sejam os jornalistas encarregados desta missão quase impossível, eles só terão condições de monitorar uma fatia mínima da avalancha informativa na internet.

Tudo isto nos leva a outro dilema: centralizar ou descentralizar o esforço para aumentar a confiança nas informações online?

A centralização é uma velha tendência alimentada pela crença na quase infalibilidade de um grupo restrito de instituições e personalidades e numa visão de mundo baseada nos conceitos de certo e errado. As inovações tecnológicas que originaram a avalancha noticiosa mostraram que o nosso mundo é muito mais diversificado e complexo do que imaginávamos, o que acabou comprometendo a eficiência dos processos convencionais de aferição de credibilidade e confiança.

A complexidade dos processos cognitivos abalou a confiança na centralização como garantia de decisões imunes a erros, mas a descentralização ainda enfrenta resistências enormes porque implica na adesão a um modelo desconhecido pela esmagadora maioria da humanidade. A polêmica das fake news surge neste contexto de incertezas sobre qual a ferramenta mais eficiente para separar o joio do trigo em matéria de informações e notícias.

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