Está acabando a lua de mel entre inovadores e conservadores na internet

O meteórico avanço das novas tecnologias digitais, alavancado pelos novos monopólios corporativos como Facebook, Google, Amazon e Apple, inevitavelmente iria, em algum momento, bater de frente com os interesses das elites empresariais e politicas que dominam o establishment mundial . A trégua entre inovadores e os tradicionalistas acabou e ambos os lados se preparam agora para uma sucessão de confrontos políticos e financeiros cuja principal característica parece ser uma quebra generalizada de paradigmas.

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Ilustração Flickr / Creative Commons

As quatro megacorporações tecnológicas começaram a enfrentar um ataque conjunto da direita e da esquerda norte-americana. Steve Bannon , um dos paladinos do ultra conservadorismo, e o senador Bernie Sanders, a principal estrela da esquerda liberal, paradoxalmente, acabaram ficando do mesmo lado na incipiente batalha da tecnologia. Ambos afirmam que Facebook, Google, Amazon e Apple precisam se transformar em instituições públicas para fugir ao enquadramento nas leis contra monopólios e porque seu gigantismo corporativo tornou-se uma ameaça social, segundo eles.

Jornais como o inglês The Guardian e o norte-americano The New York Times assumiram uma postura crítica diante do Facebook e Google acusados e lucrar às custas de conteúdos publicados pela imprensa e inseridos em programas como Instant News (Facebook) e Google News. Os jornais se deram conta que a parceria com redes sociais equivalia a um haraquiri econômico, já que elas ficam com a parte do leão na divisão das receitas publicitárias.

Na União Européia também crescem as pressões contra o avança dos novos gigantes tecnológicos norte-americanos, coreanos e japoneses por meio de pesadas punições como a que recentemente foi aplicada à Google, acusada de violar as regras da livre competição empresarial no Velho Mundo. A resistência dos europeus é mais o resultado de pressões corporativas do que de posicionamentos ideológicos.

A China, depois de um namoro inicial com a Apple, começou a endurecer o jogo e só não partiu ainda para o confronto porque o iPhone e o iPad tem milhões de usuários no país e porque boa parte da linha de produção destas marcas encontra-se em território chinês. Mas as empresas chinesas de tecnologia estão crescendo mais rápido que as norte-americanas e inevitavelmente vão partir para uma guerra de mercado. E tudo que envolve interesses chineses e norte-americanos acaba gerando tensões diplomáticas e até militares.

O fim do encantamento tecnológico

Os prognósticos de transformações drásticas no modelo de produção industrial em consequência da ampliação do uso das novas tecnologias digitais deixou de ser encarado pelas lideranças politicas e empresariais como um delírio de sonhadores utópicos. As ameaças ao status quo tornaram-se concretas não só com o fortalecimento da musculatura financeira das megacorporações digitais, mas principalmente pelos efeitos desestabilizadores do avanço da automação, da gradual perda da privacidade individual e da desconfortável sensação de desorientação informativa causada por fenômenos como as fake news (noticias falsas).

As empresas que eram consideradas paradigmas de um novo mundo mais livre e mais transparente passaram a agora a ser vistas como gigantes corporativos dotados de um enorme poder econômico e um potencial politico ameaçador, até mesmo por muitos dos beneficiários da revolução tecnológica.

As empresas Facebook, Google, Amazon e Apple , bem como a Microsoft, Yahoo, Oracle, Intel , Samsung e Dell, para citar as mais conhecidas, cresceram vertiginosamente alimentadas pelas fantásticas vantagens geradas por novos equipamentos e programas digitais. Mas enquanto os consumidores viviam a expectativa de mudanças no seu estilo de vida, o núcleo de executivos instalado em Silicon Valley, na Califórnia, assumia cada vez mais uma postura corporativa clássica, ou seja, maximização dos lucros e da influência política.

O sonho de liberdade e independência desenvolvido pelos pioneiros da internet contaminou toda uma geração de jovens que se lançaram à exploração do ambiente digital com um empenho quase messiânico. Mas o amadurecimento da Web jogou um banho de água fria nos idealistas quando os míticos jovens empreendedores que criaram o fenômeno das empresas de garagem incorporaram a postura de executivos calculistas e expansionistas típicas dos barões do petróleo e banqueiros de Wall Street. O caso Uber é emblemático das mudanças ocorridas na imagem pública das empresas digitais inovadoras.

A turbulência tecno-política

O que estamos começando a viver é uma sucessão de conflitos que marcam o choque de interesses entre beneficiários e prejudicados pelas novas tecnologias. Era inevitável que isto viesse a ocorrer, porque a internet e a digitalização marcam uma mudança global no mundo contemporâneo com uma intensidade equivalente a das consequências da invenção da imprensa e da revolução industrial. A era digital está quebrando, e vai quebrar ainda mais modelos com os quais estamos acostumados a viver.

Os pioneiros da era digital acenaram com uma sociedade mais justa em consequência dos novos poderes que a tecnologia colocou a disposição das pessoas comuns, especialmente a capacidade de expressar opiniões em redes sociais e blogs. Parte do sonho se torno realidade, mas ele veio acompanhado do aprofundamento da desigualdade econômica, principalmente nos países mais ricos do mundo, na medida em que o frenético consumo de novos equipamentos e gadgets eletrônicos gerou lucros amazônicos para as mega corporações digitais.

A questão da automação, por exemplo, já começou a desorganizar tanto o sistema de emprego e assistência social, como as relações políticas entre patrões e empregados. A substituição do trabalho repetitivo por robôs eletrônicos e algoritmos é uma tendência irrefreável porque reduz os custos de produção e aumenta a produtividade. Mas a automação gera uma massa enorme de desempregados e uma inevitável crise social, humana e política. Só esta questão já pode causar conflitos de intensidade e consequências inimagináveis. Segundo o Citibank, 47% dos empregos nos EUA desaparecerão até 2030. Os dados para a Europa e China são ainda mais preocupantes, respectivamente 57% e 77%.

O acelerado ingresso da sociedade contemporânea no mundo dos dados é um nirvana profissional para um enorme segmento de políticos, economistas, empresários e pesquisadores, mas um pesadelo insolúvel para o cidadão comum, porque afeta a privacidade individual, um dos valores mais entranhados em nossa cultura. Estamos caminhando inexoravelmente para viver em “casas de vidro”. A transparência será um avanço imenso no campo da política e da econômica, mas um desafio para o cidadão comum. As notícias sobre roubos de dados na internet tornara-se rotineiras e só aos poucos começamos a nos dar conta da vulnerabilidade dos sistemas que guardam um volume crescente de nossas informações pessoais.

Esta convulsionada transição para a chamada era digital está apenas começando. A euforia inicial com a descoberta do potencial das novas tecnologias está cedendo à preocupação com os efeitos sociais, políticos e econômicos destas inovações. Os primeiros sintomas são a incerteza e a insegurança, que inevitavelmente induzem a posições conservadoras, já que fomos educados a buscar o que é certo e seguro. A maré conservadora mundial já é visível. Estamos testemunhando personalidades tidas como progressistas assumirem posições conservadores pela dificuldade em conviver com a incerteza. Também assistimos conservadores adotarem posições liberais para preservar interesses pessoais ou institucionais.

O que estamos começando a assistir não é uma repetição da velha guerra fria entre esquerda e direita, entre socialismo e capitalismo, mas um confronto, ainda sem fronteiras, sem siglas e sem líderes, entre os que apostam na mudança, mesmo sem saberem como ela ocorrerá, e os que a temem.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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