Escândalo Facebook/Cambridge Analytica pode ser um divisor de águas na relação entre jornais e redes sociais

A decisão do Facebook de mudar a seleção de notícias e o seu envolvimento no escândalo de vazamento dos dados pessoais de 50 milhões de usuários podem ter convencido alguns dos grandes grupos midiáticos da Europa e Estados Unidos a acelerar mudanças nas suas estratégias editoriais para enfrentar o crescimento das redes sociais.

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Ilustração Pixabay /Creative Commons

As linhas mestras desta nova guinada de rumo na imprensa são: o foco do noticiário em questões familiares e comunitárias, bem como a prioridade na narrativa jornalística baseada em plataformas múltiplas, com destaque para o áudio e vídeo.

As novas prioridades já vinham sendo testadas antes mesmo das mudanças promovidas pelo Facebook e do recente escândalo Cambridge Analytica, mas ganharam um novo impulso depois que a grande imprensa mundial resolveu partir para a guerra aberta contra a rede social criada por Mark Zuckerberg, há 14 anos.

Jornais como o The New York Times, The Washington Post, The Guardian e a revista Atlantic , para mencionar só os casos mais conhecidos, já tinham percebido que a estratégia de aliar-se ao Facebook para ampliar audiências e receitas não funcionou . E quando Zuckerberg anunciou que iria deixar de privilegiar noticias sobre politica e grandes negócios, os jornalões sentiram que estava na hora de mudanças mais arrojadas, dado o risco de uma perda irrecuperável de leitores.

O noticiário político e econômico, que durante décadas foi o principal item na agenda da imprensa, vem perdendo público de forma continua e acelerada desde os anos 90 do século XX. Paralelamente, os institutos que pesquisam comportamentos assinalaram um crescimento no interesse por temas como educação, saúde, lazer, alimentação e segurança, a partir de preocupações familiares e comunitárias.

Durante os últimos 30 anos, a grande imprensa mundial percebeu que a mudança das estratégias editoriais seria inevitável, mais cedo ou mais tarde, como consequência do avanço das novas tecnologias digitais de comunicação e informação. Mas os lucros espetaculares colhidos no final do século passado e as estreitas ligações com o establishment político e empresarial desencorajaram executivos e proprietários a assumir os riscos de mudança.

Mas a inércia foi rompida quando os conglomerados da comunicação e do jornalismo se deram conta que as redes sociais estavam roubando audiências e receitas publicitárias. A pauta noticiosa, fortemente condicionada por interesses corporativos e de aliados políticos, acabou gerando frustração e indiferença entre leitores e telespectadores, que passaram a migrar para o Facebook, Twitter, Google e YouTube. Foi um sintoma claro do cansaço do público em relação à rotina do jogo do poder.

A era da experimentação

Grandes jornais como o The New York Times, por exemplo, tiveram tempo e condições de ver o que os demais não conseguiram porque estão mergulhados no dia a dia da sobrevivência. O NYT passou a apostar firme no uso de múltiplas plataformas na publicação de conteúdos jornalísticos, desenvolvendo estratégias coordenadas para a versão impressa, a versão online, bem como via áudio (podcasts) e via webTV. O Times já não é mais um jornal no sentido convencional do termo, pois a diversificação de pautas e de plataformas lhe deu uma cara de revista multimídia.

Já o The Guardian , além de testar o sistema de plataformas múltiplas apostou na relação com os leitores como estratégia editorial e financeira. O jornal britânico não adotou o acesso pago (paywall) usado por quase todos os seus concorrentes e optou por reduzir gradualmente a distância entre os jornalistas e o público, visando criar o que já foi batizado de comunidades de informação. O Guardian afirma que a nova estratégia já conseguiu reduzir consideravelmente o déficit financeiro causado pela queda nas receitas publicitarias.

A revista Atlantic, uma tradicional publicação norte-americana que sempre deu ênfase à cultura e questões sociais, resolveu aprofundar ainda mais a sua diversificação editorial e ampliar a audiência na internet criando uma seção “Família”, que agora passa a ser um de seus carros chefe na agenda de prioridades informativas. A Atlantic é uma rara exceção entre as revistas porque conseguiu equilibrar suas finanças e sobreviver aos devastadores efeitos da queda na publicidade, que está matando a maioria das revistas semanais de informação geral.

O sistema de plataformas múltiplas permite combinar algumas instalações e equipamentos da fase mecânico/analógica na imprensa com o uso das novas tecnologias digitais de comunicação e informação. As rotativas, por exemplo, podem continuar imprimindo jornais e revistas para contemplar produtos especiais como grandes reportagens, análises sobre temas abstratos ou complexos, para públicos específicos. Mas o resultado vai depender na diversificação editorial ao tratar cada plataforma (impresso, pagina web, podcast e webTV) levando em conta suas características e também as preferencias de cada segmento do público.

O fim do namoro entre Facebook e a imprensa deixa agora as coisas mais claras no campo da comunicação jornalística. A sobrevivência das redes sociais, especialmente as grandes, vai depender de sua capacidade de gerar conversas entre seus usuários, o que não será uma tarefa fácil porque não poderão mais usar o jornalismo como isca para ampliar a audiência e aumentar o faturamento publicitário.

Tudo vai depender da forma como as redes administrarem questões delicadas como privacidade, agressividade, desinformação, manifestações de ódio, xenofobia e uso comercial de dados fornecidos gratuitamente por usuários. Os últimos incidentes no Facebook mostram que as redes ainda têm muito a aprender em matéria de relacionamento com o seu público.

Já a imprensa terá que criar suas próprias redes de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Para atingir este objetivo, os jornais, revistas, sites noticiosos na internet e emissoras de TV terão que apostar fundo na qualidade do material jornalístico, na diversificação das plataformas de publicação e das agendas noticiosas para atender audiências cada vez mais segmentadas.

O escândalo Facebook/Cambridge Analytica está ganhando dimensões de um divisor de águas no universo da comunicação, ao forçar as redes sociais virtuais e a imprensa a explorar novas estratégias de produção noticiosa e de acesso ao público. Mas a parte, talvez mais complicada deste mudança de rumo, será buscar uma distinção mais clara entre o que constitui uma empresa de tecnologia, uma facilitadora de interação em rede, e as que produzem conteúdos informativos de caráter jornalístico. A falta de definições consensuais azedou a relação entre as redes sociais e conglomerados midiáticos.

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