E se o jornalismo também fosse financiado como um serviço público?

Pesquisadores e jornalistas norte-americanos e australianos causaram impacto na imprensa mundial ao decidirem testar o polêmico exercício do jornalismo com financiamento público, uma ideia muito criticada por governos, vários profissionais e uma boa parcela do público em geral. A alegação é a de que este tipo de patrocínio gera um jornalismo chapa branca, subserviente ao poder público.

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Foto Pixabay 1591766 / CC

O raciocínio que ampara os promotores da nova alternativa para a crise financeira, especialmente na pequena e media imprensa, é o de que como a imprensa deixou de ser um negócio altamente lucrativo ao mesmo tempo em que as pessoas dependem cada vez mais de noticias e informações, a tendência é a transformação do jornalismo num serviço de utilidade pública. Isto o tornaria apto para receber recursos públicos, a exemplo do que já ocorre com bombeiros, coleta de lixo e defesa civil, por exemplo.

Simon Galperin, em artigo pulicado pela defende a criação de instituições municipais chamadas Distritos Informativos Comunitários encarregados de criar um projeto jornalístico multimídia e multiplataformas voltando especificamente para o fornecimento de notícias, informação, classificados e entretenimento. Os recursos vem de verbas públicas arrecadadas na forma de uma taxa anual paga pelos contribuintes e gerenciada por um Conselho de Orçamento, integrado por associações de moradores, de empresários e pela Câmara de Vereadores .

Na Austrália, a Fundação para o Jornalismo de Interesse Público ( Public Interest Journalism Foundation — PIJF) acaba se pedir formalmente ao parlamento do país a discussão de um projeto de lei definindo jornalismo de interesse publico e o seu subsequente financiamento com recursos do tesouro nacional. Andrew Dodd, professor universitário e um dos diretores da PIJF garante que o fechamento de jornais comunitários e a redução da cobertura local em veículos nacionais reduziu drasticamente o acesso dos habitantes de pequenas e medias cidades às informações necessárias à tomada de decisões sobre os locais onde moram e trabalham. A proposta da Fundação sugere que o financiamento do jornalismo de interesse público seja feito através de uma taxa cobrada sobre a publicidade inserida no e no .

Estas iniciativas ainda estão na fase exploratória, mas tem em comum uma característica que coloca o debate em bases bem diferentes das anteriores propostas de financiamento público da imprensa local e comunitária. É uma das primeiras vezes em que grupos de jornalistas e pesquisadores da comunicação colocam o jornalismo como um serviço ao público, sem dependência tanto de governos como de conglomerados privados. Controlar a imprensa, e através dela a opinião pública, sempre foi uma tentação irresistível para os governantes. Da mesma forma, o setor empresarial privado sempre viu na comunicação um negócio altamente rentável que só perdeu os seus atrativos financeiros muito recentemente.

Uma conjuntura totalmente nova

Inovações tecnológicas como a internet e a digitalização mudaram este quadro porque a notícia perdeu valor comercial na troca com a publicidade. Agora as pessoas procuram dados, fatos e notícias porque precisam tomar decisões pessoais e coletivas, voltadas ao bem comum e individual. A informação também é crucial para o setor produtivo porque ela é a matéria prima do conhecimento, que por sua vez é a base da inovação que garante competitividade no mercado. Mas a indústria e o comércio já não estão mais tão aferrados à exclusividade na posse de números e conhecimentos porque sabem que a inovação depende da circulação ampla de informações. A manutenção de uma patente industrial já não é mais um bom negócio porque sempre tem alguém inventando algo novo e mais eficiente.

Esta conjuntura é totalmente nova no ambiente jornalístico e coincide com a intensificação do sentimento popular de que a sociedade precisa assumir um papel mais proativo para compensar a centralização, burocratização, ineficiência, alto custo, partidarização e corrupção na maioria dos aparelhos estatais, na maior parte do mundo. No estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos, os Distritos Informativos Comunitários funcionam há mais de um ano e já usam as técnicas do orçamento participativo, uma estratégia de gerenciamento do dinheiro pago em impostos e que se tornou mundialmente famosa a partir do caso de Porto Alegre, em 1989, sendo hoje adotada em cerca de 15 capitais mundiais.

O desenvolvimento de um modelo de financiamento público de projetos jornalísticos em pequenas e medias cidades é, no entanto, algo complexo porque não depende apenas da aprovação de leis, escolha de tecnologias e nem da nomeação de responsáveis. Para funcionar precisa, essencialmente, da participação das comunidades e de jornalistas, porque estes dois segmentos são chaves para evitar a interferência estatal, política e empresarial na produção, seleção e publicação de notícias de interesse público. A inexperiência tanto das comunidades como dos jornalistas neste tipo de projeto faz com que a sua implantação inevitavelmente terá avanços e recuos, o que pode tomar algum tempo.

Se os consumidores de informação pagam impostos para terem direito a serviços como bombeiros, defesa civil e segurança urbana, porque também projetos jornalísticos igualmente voltados ao atendimento de necessidades públicas não podem ser financiados por uma parte do orçamento municipal? A era digital está nos mostrando que a informação se tornou demasiado importante para a vida das pessoas para que ela seja condicionada apenas por quem manda nos governos, partidos ou empresas.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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