E se a gente lesse menos jornais e assistisse menos TV?

Seria esta pergunta um sintoma agudo de alienação mental, um indício de QI baixo, um anátema à imprensa ou uma agressão aos jornalistas? Se formos obedecer ao chamado senso comum, a resposta é um taxativo sim. Mas se ousarmos pensar “fora da caixa”, talvez a conclusão seja bem diferente.

Amigos, parentes e colegas, provavelmente irão comparar nossa recusa em procurar notícias da campanha eleitoral, sobre corrupção, violência urbana, epidemias, desemprego e carestia a uma excentricidade passageira ou a um súbito ataque de emburrecimento. Todos aceitam incondicionalmente, desde a adolescência, a ideia de que estar bem informado é condição essencial para ser um cidadão.

Mas aquilo que conhecemos como senso comum, começa a ser questionado a partir de uma série de dados e fatos registrados na realidade que nos cerca, especialmente nos grandes aglomerados urbanos, em qualquer parte do mundo. Uma pesquisa da Sociedade Norte-Americana de Psicologia indicou, em 2017, que 95% das pessoas consultadas liam jornais regularmente, metade deles admitiram que as notícias causavam estresse e 2/3 acreditavam que isto era provocado por exageros informativos da imprensa.

Graham Dewey, professor de psicologia social e editor chefe da revista acadêmica Journal of Experimental Psychopathology, afirma que a saúde mental das pessoas piorou em consequência da ansiedade e stress causados por notícias ou imagens violentas e chocantes publicadas pela imprensa.

Em janeiro deste ano, uma reportagem da revista Time indicou que um em cada dez norte-americanos acessa o noticiário de hora em hora, e que este hábito pode ser relacionado à sintomas de depressão crônica responsáveis por problemas físicos como artrite reumatoide, hipertensão, insônia e deficiências hormonais.

A psicóloga e ex-jornalista inglesa Michelle Geilan, após estudar o comportamento de dois mil telespectadores de um telejornal matutino descobriu que 27% deles admitiram que não tiveram um bom dia , seis horas depois de assistirem apenas três minutos do noticiário sobre crimes e atos de violência. Em compensação, entre os que não viram as notícias negativas, 88% afirmaram que tiveram um dia tranquilo.

As evidências de associação entre noticiário violento e stress emocional do público aumentam a cada nova pesquisa, mas a imprensa continua resistindo a uma reavaliação de sua estratégia editorial. Há inclusive experiências bem sucedidas de aplicação prática do chamado “jornalismo de soluções”, onde o mais importante é a busca de alternativas para problemas sociais e menos no destaque da morbidez dos assassinatos, assaltos, sequestros e atentados. Mas isto não tem sido o suficiente para mudar os comportamentos vigentes nas redações.

Notícia: abstinência ou dieta

A avalanche informativa na internet além de multiplicar exponencialmente a quantidade de notícias à disposição do público, gerou o fenômeno das fake news , provocando insegurança entre leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Estar bem informado deixou de ser um atributo vinculado à quantidade de notícias lidas, ouvidas ou vistas. O importante é poder estabelecer quais as mais importantes e quais as que são flagrantemente falsas ou distorcidas.

Os veículos de comunicação criaram ao longo das últimas décadas uma espécie de compulsão pública voltada para o consumo de produtos noticiosos. Vinte por cento dos adultos norte-americanos estão permanentemente em contato, da manhã a noite, com fontes de notícias como jornais, telejornais, paginas Web e redes sociais. Eles já desenvolveram um tipo de dependência ou vício noticioso, sem o qual se sentem inseguros no dia a dia, conforme mostrou a pesquisa do professor Dewey .

Mesmo que não tenhamos atingido o mesmo grau de dependência noticiosa vigente entre 245 milhões de norte-americanos com mais de 15 anos, nós brasileiros também já apresentamos sintomas de indigestão informativa diante da massiva veiculação de uma agenda midiática que quase não varia de uma publicação para outra.

A abstinência noticiosa não é uma receita recomendável a porque equivale a um tratamento de choque em relação ao stress e angustia informativa. Mas uma dieta, quebra gradual da dependência, já é uma alternativa sugerida por quem já estudou o problema. Talvez o ponto mais importante seja começar a “pensar fora da caixa”, como sugere o norte-americano Ryan Holiday, que se auto define como “explorador cibernético”, defensor da tese de que os livros são o melhor antídoto para a saturação noticiosa.

Um das formas de “pensar fora da caixa”, ou seja, fugir das normas vigentes em matéria de busca de notícias, pode começar pelo questionamento da ideia de “cidadão bem informado”, noutras palavras, o que esta condição passou a significar numa era de super-oferta de informações.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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