E se a gente começasse a olhar pra frente…

Desde o início da campanha eleitoral de 2018, os brasileiros estão sendo levados a olhar para trás pela maioria esmagadora dos principais formadores de opinião no país. O fenômeno se tornou mais intenso e indicador da existência de padrões de comportamento político, quando os dois candidatos que passaram ao segundo turno das eleições deste ano passaram a priorizar temas ligados ao passado.

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Ilustração PxHere / Creative commons

O candidato Fernando Haddad centrou sua campanha na promessa de uma volta aos “bons tempos” em que o Partido dos Trabalhadores era hegemônico na politica nacional e conseguiu gerar uma tímida ascensão socioeconômica das classes C e D. Já o presidente eleito Jair Bolsonaro concentrou sua plataforma eleitoral na crítica aos efeitos que considerou “erros catastróficos” da aplicação de uma política de redistribuição parcial de renda durante as administrações Lula e Dilma Rousseff para gerar consumo interno e alavancar uma mobilidade social..

A preocupação dos políticos com o passado fez com que a agenda pública de debates ignorasse os complicadíssimos dilemas vividos pela sociedade atual, justo no momento em que o país e o mundo vivem uma traumática transição de uma era analógica para outra predominantemente digital. Às vésperas da posse do capitão aposentado Jair Bolsonaro na presidência da República, a situação continua a mesma, ou seja, mais do mesmo, de sempre.

Ninguém propõe um debate sério e aprofundado sobre a vergonhosa desigualdade social no Brasil, apontada por pesquisadores como a causa da miséria, delinquência, atraso, corrupção e mais um rosário de males insolúveis há décadas. Governos e tomadores de decisões preferem gastar montanhas de dinheiro em pesquisas sobre a desigualdade, que apontam dados e situações alarmantes mas acabam servindo para dissimular a ausência de propostas para a superação do fosso entre ricos e pobres no país.

A polêmica alternativa da implantação de um sistema de renda mínima universal, já testada com êxito em inúmeros países, inclusive Estados Unidos, Inglaterra e Finlândia, nunca entrou na agenda da nossa imprensa de forma consistente e continuada. A ideia é liminarmente descartada como utópica e irrealista, sem uma avaliação de sua praticabilidade no Brasil. O projeto que chegou mais perto da renda mínima universal é o Bolsa Família, cujos resultados conseguiram superar o bate boca ideológico e só os políticos mais radicais na direita ousam dizer que o programa não passa de desperdício de dinheiro público.

Utopia para Realistas

Segundo o autor do livro Utopia para Realistas, o historiador holandês Rutger Bregman, os benefícios de médio e longo prazo da concessão de uma renda básica, sem pré-condições, para os miseráveis de países pobres como o Brasil, supera o enorme e crescente dispêndio de dinheiro público com saúde pública, previdência social, ajuda humanitária e segurança pública.

É uma conta matematicamente simples e quase óbvia conforme os exemplos citados por Bregman, mas que é ignorada porque seus efeitos não são imediatos e nem automáticos. Vou voltar a este assunto para entrar nos detalhes, mas quem quiser entrar na discussão pode buscar mais informações no livro Utopia para Realistas, já traduzido ao português, lançado em setembro passado e disponível em versões impressa (30 reais / 256 páginas) ou digital ( Kindle/ Amazon 22,4 reais).

Experiências feitas em vários países mostraram que os resultados concretos da renda mínima universal só começam a se tornar palpáveis para o resto da população depois de cinco a dez anos de aplicação da medida, prazo que supera o mandato da maioria dos políticos, praticantes apaixonados do imediatismo eleitoreiro. Não acho a renda mínima uma solução mágica, porque é necessário estudá-la na realidade de cada país, e no caso brasileiro, em cada região.

Já houve casos, como o da Bolívia, onde uma reforma agrária apressada implantada nos anos 50, foi um fracasso apesar da preocupação em dar terra e gado aos camponeses indígenas. O propósito foi nobre, mas desastrado porque não levou em conta a milenar desconfiança dos indígenas do altiplano boliviano em relação aos colonizadores europeus. A primeira coisa que os índios fizeram depois de receber o gado foi abatê-lo para consumo, certos de que mais cedo ou mais tarde os brancos viriam tomar tudo de volta, como já tinham feito ao longo da história boliviana.

O medo diante da revolução digital

A revolução digital é outro tema que tem a ver com a organização futura do nosso país, mas que os políticos fingem não ver. Todo mundo fala de emprego, mas raríssimos homens públicos tem a coragem de admitir que estamos vivendo uma transformação estrutural onde o pleno emprego será irremediavelmente uma lembrança do passado. Todas as funções repetitivas ou mecânicas desenvolvidas por trabalhadores serão substituídas mais cedo ou mais tarde por robôs eletrônicos.

Políticos gastam saliva e papel prometendo criar até 10 milhões de novos empregos, mesmos sabendo que isto é inviável, numa conjuntura onde as empresas buscam freneticamente a automação para reduzir custos operacionais e sobreviver à feroz concorrência globalizada. Chega a ser ridícula a afirmação de que temos que resistir à migração de empregos para a China. Não há como concorrer com a abundância de mão de obra asiática barata.

Deveríamos olhar para frente e abrir um debate nacional sobre o que faremos com milhões de brasileiros que perderão emprego e consequentemente aumentarão a trágica conta de desigualdade social crescente e alimentarão o contingente de indivíduos atraídos pela delinquência e pelo crime como alternativa para uma vida melhor. Já não há mais dúvidas de que qualquer iniciativa séria de busca de soluções para o desemprego estrutural passa pela capacitação e educação de trabalhadores, mas nossos dirigentes preferem apostar na Escola Sem Partido.

Debater uma politica nacional de enfrentamento do desemprego implica abandonar a preocupação eleitoreira porque é um desafio imenso e real que só vai piorar a medida que o tempo passar. O problema é que somos governados por imediatistas cujo horizonte politico é de cinco anos no máximo.

Por isto temos que buscar outras alternativas e uma das que parece quase óbvia é a imprensa deixar de viver em função da bolha brasiliense para ver o país concreto. Se ela não fizer isto, e rápido, ela funda junto com a burocracia estatal e parlamentar. Mas este também é outro tema sobre o qual nós devemos nos debruçar de olho no que está por vir.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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