Depois do atentado, agora é a vez do Bolsonaro, paz e amor

A imagem do candidato Jair Bolsonaro vai sofrer uma mudança acentuada caso os seus marqueteiros eleitorais consolidem a estratégia “paz e amor” delineada no vídeo mostrando o ex-militar no leito hospitalar da UTI, logo após o atentado do dia 6/9 na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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Foto Raysa Leite/ Jornal Tribuna de Minas

No vídeo, o senador Magno Malta, faz uma oração emocionada na qual invoca várias vezes a figura de Deus e proclama que o sofrimento de Bolsonaro é uma prova de que ele foi escolhido para transmitir uma mensagem de esperança ao povo brasileiro. Tanto a fala de Malta, como a de Bolsonaro no final do vídeo, foram claramente produzidas visando a sua divulgação pela imprensa e pelas redes sociais.

O staff do candidato da extrema direita mostrou uma grande agilidade em aproveitar o momento politico criado pelo atentado para iniciar uma revisão na imagem pública do ex-capitão justo no momento em que seus adversários se preparavam para deflagrar uma maciça ofensiva de acusações e denúncias sobre xenofobia, racismo e machismo para neutralizar sua vantagem nas pesquisas, às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais.

O comportamento da imprensa brasileira, após o atentado, ajudou a colocar Bolsonaro no centro das atenções graças à cobertura intensiva da evolução do quadro clinico do candidato do Partido Social Liberal (PSL) e às investigações sobre os autores e causas do incidente. Com isto, a imprensa além de suprir a falta de visibilidade de Bolsonaro por conta do limitadíssimo tempo na propaganda eleitoral gratuita do PSL, deslocou o ex-presidente Lula das manchetes, neutralizando a estratégia do Partido dos Trabalhadores (PT) que também usava a mídia para manter o seu fundador em evidencia pelo maior tempo possível.

O atentado deu a Bolsonaro uma proteção contra o previsível bombardeio de acusações que poderia minar sua posição na corrida eleitoral, já que dificilmente algum outro candidato ousaria partir para o ataque num momento de fragilidade física do ex-capitão paraquedista. Além disso, o “sermão” do senador Magno Malta na UTI deu o tom para a nova retórica da campanha direitista que deve enfatizar menções à família e religião, reduzindo o espaço às declarações mais agressivas sobre violência urbana, homossexualismo e corrupção.

A responsabilidade do jornalismo

Caso a recuperação de Jair Bolsonaro siga as informações transmitidas pelos seus médicos, ele praticamente não fará mais campanha eleitoral de rua antes do dia 7 de outubro, data do primeiro turno. Nestas circunstâncias, seu staff deve produzir suficientes fatos novos para atrair a atenção da imprensa e manter o candidato em evidencia sem dar espaços para outros concorrentes, especialmente Geraldo Alkmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Ao se posicionar como vitima, Jair Bolsonaro aumenta as suas chances de chegar ao segundo turno, o que dará à votação do dia 28 de outubro, um caráter ainda mais dramático do que o previsto pelos analistas políticos. Isto aumenta ainda mais a responsabilidade da imprensa que não pode mais ignorar as consequências políticas de escolhas editoriais justificadas em questões abstratas e subjetivas como o argumento do “interesse jornalístico”.

A habilidade e recursos técnicos dos especialistas em marketing politico conseguem hoje transformar o que seriam apenas fatos jornalísticos em estratégias eleitorais eficazes, cujos resultados não podem ser ignorados pela imprensa, como se fossem efeitos colaterais da batalha para chegar à presidência da República.

Caso a estratégia do “paz e amor” funcione no caso de Bolsonaro, ironicamente, ele talvez tenha que agradecer a ideia ao ex-presidente Lula, seu desafeto, que em 2002 chegou à presidência usando o mesmo apelo emocional.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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