Credibilidade nas notícias: Quando a dúvida passa a ser uma certeza

Cada vez aumenta mais o número de pessoas que reclamam contra a falta de profissionais e instituições capazes de dizer o que é certo e o que é errado no meio da avalancha diária de notícias publicadas pela imprensa. Nos centros de tecnologia, na imprensa e nas universidades a procura de soluções que possam resolver as incertezas e dúvidas do público não é menos angustiante.

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Muita gente espera que os problemas com a certificação de credibilidade nas notícias, um fenômeno agravado pelas fake news , possam ser resolvidos de forma definitiva por meio de uma tecnologia revolucionária, de novas leis ou por uma autoridade central, tipo tribunal da verdade. Alguns chegam a sonhar com uma volta “aos bons tempos “ de antes da internet, mesmo sabendo que isto é impossível .

O maior de todos os problemas, no entanto, parece ser o de admitir que não existe fórmula mágica para acabar com as incertezas geradas pelas dúvidas sobre credibilidade de dados, fatos e eventos publicados na internet. Vai ser muito difícil convencer as pessoas de que a nova realidade criada pelas tecnologias digitais impossibilita a produção de soluções definitivas em questões complexas como as que quase sempre acabam virando notícia na imprensa.

Até agora nos vivíamos num contexto social onde as coisas eram certas ou erradas, verdadeiras ou falsas, boas ou ruins. Era assim porque era reduzido o volume de dados que tínhamos sobre os fatos e eventos que geravam notícias, mas depois da avalancha informativa da internet, tudo mudou porque surgiram dezenas e até centenas de versões diferentes para uma mesma situação.

Ficou claro que estabelecer a verdade sobre um dado, fato ou evento se transformou numa operação demasiado complicada, demorada e custosa, quase inviável dentro do ritmo industrial de produção de notícias num jornal, revistas ou telejornal. Pior do que isto, alguns pesquisadores da teoria da complexidade, como o cientista político norte-americano Robert Axelrod, chegam a afirmar que já é materialmente impossível dirimir todas as nossas dúvidas em questões como política, economia ou sociedade.

Isto abala um dos fundamentos de nossa cultura que é a dependência de certezas. Nós temos uma enorme dificuldade em lidar com situações indefinidas, como as que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman tratou em sua pesquisa sobre modernidade fluida. O fato concreto é que a civilização contemporânea vive em meio a um ritmo frenético de mudanças politicas, sociais, econômicas, culturais e tecnológicas que gerações anteriores considerariam simplesmente demenciais.

Fake news

Por isto os esforços para buscar soluções definitivas para a o fenômeno das fake news estão fadadas ao fracasso porque não conseguirão apresentar resultados convincentes. Não é pela incapacidade dos pesquisadores e nem pela tecnologia usada, mas porque a natureza mutável e complexa do material trabalhado, a informação, não permite que se chegue rapidamente a conclusões dicotômicas do tipo verdadeiro ou falso.

O desafio que se coloca diante de jornalistas, pesquisadores e tomadores de decisão passa a ser agora mostrar como a nova realidade na qual estamos começando a viver mudou os parâmetros de confiança nas notícias e ensinar as pessoas a coexistir com a incerteza informativa. Não se trata de desconfiar de tudo ou rejeitar todas as versões só porque não há uma definitiva. Conviver com a incerteza informativa significa assumir que sempre existirá algo que não sabemos que pode mudar nosso posicionamento atual. Significa estar aberto a dúvidas e à possibilidade de que alguém conheça o que não sabemos.

Jornalistas e professores de jornalismo poderiam dar mais ênfase à questão da convivência com a incerteza porque esta é uma sensação com a qual ainda teremos que coexistir durante um bom tempo. Nós já nos acostumamos a conviver com a dúvida nas loterias, na previsão do tempo, nos jogos de futebol etc. Faz parte do nosso cotidiano e seriamos considerados fora da realidade caso condicionássemos a compra de um bilhete de loteria à certeza de que teríamos direito a um prêmio.

O jornalismo na era digital terá que mudar o discurso sobre seu papel como certificador do que é verdadeiro ou falso, porque isto já não é mais possível. O volume de dados, fatos e eventos circulando na internet chegou a tais dimensões que não há mais ser humano capaz de avaliar o que é lixo ou não. Nem mesmo os algoritmos, porque apesar de multiplicarem exponencialmente a capacidade humana de processar dados por meio de recursos como a inteligência artificial, quem os programa é um humano, e portanto sujeito à incerteza.

Não será fácil e nem rápida a mudança de comportamentos e valores relacionados à confiança em informações, nas redações e nas escolas de jornalismo. Mas é onde o processo deve começar porque do contrário serão os próprios leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que começarão a estabelecer os seus critérios sobre credibilidade, o que é um dos fatores responsáveis pelo surgimento das fake news.

O jornalismo pode funcionar como um antídoto a proliferação de notícias falsas e da desinformação enfatizando a necessidade da diversificação das fontes de informação, em vez de assumir o risco de pretender oferecer às pessoas uma certificação de credibilidade impossível de ser alcançada na prática. Como mostrar para o leitor que a única certeza possível é a de que teremos que conviver com a dúvida. É um desafio e tanto, para redações e faculdades de jornalismo.

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