Cooperativas podem ser a solução para dilemas financeiros do Twitter e do jornalismo online

O movimento We Are Twitter (https://twitter.com/hashtag/wearetwitter ) , surgido no ano passado, deflagrou um debate mundial na internet cujos desdobramentos podem servir para esclarecer uma série de incógnitas no futuro financeiro do jornalismo na era digital. Os seguidores da hashtag #wearetwitter querem comprar a plataforma Twitter para transforma-la numa cooperativa não lucrativa.

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Fonte: thegoldguys.blogspot.com

A possível relação com o jornalismo digital vem do fato de que ele, tanto quanto o Twitter, ainda não achou um sistema capaz de garantir a sustentabilidade financeira a médio prazo. Ambos conseguem atrair usuários mas patinam na hora de combinar receitas e despesas . O impasse financeiro neste tipo de iniciativa na internet era atribuído à problemas de gestão e de estratégias publicitarias equivocadas, mas agora surgem novas explicações a partir de teorias desenvolvidas em instituições como a Universidade do Colorado, em Boulder, Estados Unidos.

As pesquisas de professores, como Nathan Schneider e Trebor Scholz, mostraram que a busca de um novo modelo de sustentabilidade financeira para empreendimentos online não é um processo fácil e nem rápido. O Twitter, por exemplo, teve uma ascensão vertiginosa em termos de usuários, mas nunca conseguiu satisfazer os investidores da bolsa eletrônica NASDAQ e nem de Wall Street por conta da dificuldade em associar o fluxo de visitantes, estimado hoje em quase 330 milhões de pessoas, à geração de grandes receitas publicitárias.

Para os investidores, o modelo de valorização financeira de uma rede social é o Facebook, o que os levou a cobrar do Twitter a mesma performance em matéria de atração de publicidade. Mas o Twitter nunca conseguiu satisfazer as expectativas dos investidores porque as duas redes sociais tem propostas e estruturas tecnológicas diferentes.

Duas lógicas financeiras opostas

A eficácia de um anúncio no Facebook está garantida pelo espaço reservado à publicidade no design da página. Já o Twitter gira em torno de micro-mensagens e o seu design de página não favorece a inserção de muitos anúncios. Além disso, o Facebook está se transformando numa revista digital produzida por comentários de usuários, enquanto a rede de micro mensagens passou a ser um gigantesco ambiente de circulação de informações.

Para os padrões de Wall Street, o Twitter não é um bom negócio, porque as dificuldades para captar publicidade prejudicam a valorização dos papeis da empresa nas bolsas de valores. Se para os investidores, a rede não desperta muito interesse para o povo da internet e agora também para vários políticos, ela é cada vez mais uma ferramenta obrigatória no mundo digital.

Esta discrepância entre a lógica financeira das bolsas de valores e a dos empreendedores de projetos, como o Twitter , pode ser explicada pelo fato de que os investidores de Wall Street e da BOVESPA ( em São Paulo) tem como norma apostar no crescimento infinito de uma empresa como base para a valorização de suas ações . Já o Twitter, bem como outras iniciativas digitais como a enciclopédia Wikipedia tem como base o seu caráter de prestação de serviços ao púbico, onde o lucro não tem um caráter central na atividade empresarial.

Apesar do número de usuários ter crescido pouco mais de 50% em 10 anos e da rede ter se transformado na principal fonte de notícias nas eleições norte-americanas de 2016, as ações do Twitter caíram de 44 dólares em 2007, ano de sua entrada na bolsa de Wall Street, para para 18,6 dólares no ano passado, quando o déficit operacional chegou a US $ 162 milhões.

No dia 22 de maio, os principais acionistas do Twitter decidem o futuro da empresa em meio à pressões de usuários favoráveis a sua transformação numa cooperativa, diante da falta de perspectivas em transformar a rede num negocio de alta rentabilidade como o Facebook. Este impasse entre uma realidade econômica atual adversa e um futuro promissor permite estabelecer vários pontos de contato com os dilemas enfrentados por projetos jornalísticos online baseados na informação como um bem público.

O desafio financeiro do jornalismo online

As perspectivas do jornalismo online são promissoras a médio e longo prazo porque o mundo está girando cada vez mais em torno da circulação e recombinação de informações. A plataforma do Twitter permite uma circulação vertiginosamente rápida de notícias, o que gera uma avalancha de dados, fatos e eventos que desorienta as pessoas porque elas passam a ter cada vez mais dificuldade para identificar o grau de confiabilidade, exatidão, atualidade, pertinência e relevância das informações recebidas.

O jornalismo online tem hoje uma grande dificuldade para captar recursos, especialmente as iniciativas locais que passaram a exercer um papel preponderante na geração de capital social em comunidades. Esta dificuldade decorre do fato de que a notícia deixou de ser um produto valorizado para se transformar num bem público, essencial para o dia a dia das pessoas, mas sem valor comercial.

O modelo das cooperativas de plataformas tecnológicas é uma ideia ainda em evolução, mas que já começa a atrair a atenção de empreendedores cujos projetos não se enquadram dentro a lógica do lucro rápido, modelo Wall Street. O grande problema dos empreendimentos jornalísticos online é a dificuldade para obter um capital inicial mínimo, já que os investidores priorizam a possibilidade de lucros rápidos e facilidade de vender a empresa financiada para uma corporação mais poderosa.

Veículos que prestam serviços informativos ao público, na maioria esmagadora dos casos não atendem a estas exigências porque os interesses noticiosos tendem à segmentação e especialização em consequência da oferta abundante de informações. Assim, o desenvolvimento de uma plataforma tecnológica administrável por uma cooperativa de usuários pode funcionar com um investimento inicial tanto em software como em aportes financeiros dos seus criadores e usuários pioneiros. Nos Estados Unidos já surgiram vários projetos jornalísticos com estas características e que depois de lograrem uma mínima sobrevivência inicial, conquistaram credibilidade para buscar apoiadores financeiros, especialmente anunciantes.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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