Comunidades de Prática: como reutilizar o “lixo” informativo no jornalismo (*)

O jornalismo é uma atividade iminentemente coletiva e agora também colaborativa por conta do tsunami de inovações tecnológicas surgidas nos últimos 30 anos. Mas a maior parte dos resultados do processamento digital de notícias é perdida devido a dois tipos de distorções existentes dentro das redações.

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Ilustração MaxPixel / Creative Commons

A primeira delas é causada pelo sistema industrial de produção em grandes e médias empresas jornalísticas onde as redações acabaram se transformando em linhas de montagem de notícias. A outra distorção, surgida já na era do jornalismo digital, é o enorme desperdício de dados e informações provocada pela ausência de políticas de produção de conhecimento nas redações.

O sistema industrial no jornalismo está em crise, mas as rotinas, normas e a cultura que ele gerou ainda condicionam o trabalho da maioria dos profissionais da atividade. No sistema linha de montagem, a produção de notícias segue a lógica mercantil, ou seja, a notícia serve para vender jornal e atrair anúncios. Assim, tudo o que não está alinhado com este objetivo é descartável e vira lixo.

O jornalismo praticado na internet ainda sofre os efeitos da herança analógica no processamento da notícia, mas a tendência mercantil perde espaço diante da necessidade, editorial e financeira, de buscar uma relação mais próxima com leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. Um maior engajamento com o público valoriza o chamado jornalismo de soluções onde a preocupação com os dilemas do público é mais importante do que a atração de anunciantes.

Ao oferecer insumos informativos para que as pessoas encontrem opções inovadoras para seus problemas, o jornalismo de soluções recorre às técnicas de produção de conhecimento, o que representa uma ruptura com o modo tradicional de processar notícias. Atualmente, as redações vivem o conflito entre uma produção informativa socialmente relevante e a manutenção do sistema industrial voltando para a venda da notícia como commodity.

Uma das possibilidades em estudo, em universidades norte-americanas e em países nórdicos da Europa é a transformação das redações jornalísticas da era digital em Comunidades de Prática (CPs) , uma ferramenta organizacional , surgida no final do século XX, e foi desenvolvida para a produção de conhecimento.

As redações jornalísticas como Comunidades de Prática

As CPs baseiam-se no princípio de que o conhecimento e a inovação resultam do aprendizado desenvolvido de forma coletiva e em situações específicas. Atualmente os jornalistas estão sendo obrigados a aprender a usar um grande número de sofisticados equipamentos de edição e comunicação, bem como desenvolver novos comportamentos para conviver com um público cada vez mais proativo.

Não se trata apenas de decorar manuais e tutoriais, mas principalmente de adaptar hardware e software às condições específicas de cada publicação, a parte mais difícil e geralmente esquecida porque as empresas querem soluções tipo plug and play ( ligou, funcionou) . Na era digital, a facilidade de publicação de material informativo gerou uma grande oferta jornalística, onde a sobrevivência depende da diversificação de linhas editoriais, o que exige pesquisa, estudo, aprendizado e conhecimentos.

As Comunidades de Prática, segundo pesquisadores como a norte-americana Amy Schmitz Weiss e o espanhol David Domingo são o instrumento ideal para preencher a lacuna de conhecimento gerada pelo imediatismo e tecnicismo na migração do jornalismo para o ambiente digital. As CPs são apontadas por outros acadêmicos, como o norueguês Stgeen Steensen como a melhor forma de combinar prática e teoria para gerar inovações numa iniciativa jornalística, não importa o número de pessoas que nele trabalha.

Experiências feitas no jornal online holandês De Correspondent revelaram também que as Comunidades de Prática permitem reprocessar sobras de informações não usadas em notícias e reportagens através do registro em bancos de dados, para dar origem a novos conteúdos jornalísticos. A direção do jornal admite que quase 20% das reportagens publicadas atualmente surgiram a partir de dados descartados de outras reportagens.

O projeto GPSJOR, desenvolvido conjuntamente pela UFSC e pelo IELUSC, de Joinville, incluiu a formação de uma Comunidade de Prática entre os instrumentos usados para desenvolver coletivamente conhecimentos sobre governança em projetos jornalísticos na era digital. Trata-se de um tema ainda pouco estudado onde a troca de informações entre pesquisadores é o principal recurso para produzir, coletivamente, conhecimentos, a partir de experiências individuais.

A transformação das redações em CPs ainda é um processo muito novo, mas ela se baseia numa evidência já consolidada: a de que o diferencial futuro do jornalismo depende mais da produção de conhecimentos inovadores do que das regras empresariais que regem o funcionamento das linhas de montagem de notícias.

(Texto originalmente publicado no site OBJETHOS)

Para os interessados em aprofundar conhecimentos sobre Comunidades de Prática:

- Innovation processes in online newsrooms as act-networks and communities of practice. Artigo por Amy Schmitz Weiss e David Domingo, publicado em 2010 no periódico New Media Society. DOI: 10.1177/146144809360400

- Interactivity in the daily routines of online newsrooms. Dealing with an uncomfortable myth. Artigo de David Doming, publicado, em 2008, no Journal of Computer-mediated Communication. DOI 10.1111/j.1083–6101.2008.00415.x

- Communities of practice, Learning, Meaning and Identity. Livro de Etienne Wenger, considerado o criador das Comunidades de Prática voltadas para o aprendizado e produção de conhecimento. Publicado em 1998, pela Cambridge University Press.

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