Comunidades de informação: um antídoto para o caos noticioso (1)

Já estamos dentro do redemoinho da desinformação causada pela avalanche informativa na medida em que nos faltam elementos para saber se as notícias que nos chegam via sites jornalísticos ou via redes sociais são ou não confiáveis. O que lemos nos jornais, revistas e sites noticiosos ou assistimos nos telejornais, só em raras oportunidades, nos transmite a sensação de que conseguimos entender o problema em questão. A maioria das notícias tem no mínimo duas versões diferentes e a imprensa não consegue, ou não quer, ir mais fundo na apuração das causas, consequências, beneficiados e prejudicados em cada fato, dado ou evento publicado.

Além da desorientação noticiosa, começamos a perceber o surgimento de uma nova versão da velha Guerra Fria, agora movida a informações. A procura da verdade, se é que existe uma verdade absoluta, perde espaços para a chamada pós verdade, ou seja, a disseminação massiva de dados, fatos ou eventos sem verificação de autenticidade e sem contextualização. É a consagração da máxima nazista: “uma mentira repetida milhares de vezes vira verdade”.

O jargão “fake news (notícias falsas) é cada vez mais frequente no vocabulário político enquanto o público dá sinais de perplexidade informativa, sem que a imprensa tenha se preocupado a fundo com este tipo de sensação, cada vez mais comum entre as pessoas comuns, embora dissimulada por temor de parecer um sintoma de ignorância. Pelo contrário, se multiplicam os casos em que a imprensa é um dos protagonistas da desinformação, o que aumenta, ainda mais, a importância e urgência na busca de antídotos para a síndrome da insegurança informativa, antes que ela se transforme em paranoia coletiva.

A busca de alternativas
Há inúmeras pesquisas em curso sobre o desenvolvimento de sistemas de reputação baseados em algoritmos de credibilidade, novas plataformas de checagem de fatos visando reduzir a descontextualização de dados e eventos, ao mesmo tempo em que começa a ser explorada a possibilidade de formação de comunidades de informação, onde as pessoas se agrupam para filtrar notícias e compartilhar os resultados.

Os estrategistas, tanto nas forças armadas, como na política e nos negócios sabem hoje que conquistar corações e mentes é muito mais importante do que ocupar territórios ou acumular matérias-primas. Estamos na era da informação e isto significa que ela se tornou uma arma mais barata e eficiente do que os fuzis e mísseis, que continuam e continuarão a ser usados, mas como parte de uma estratégia de de apoio à guerra noticiosa.

Isto coloca o cidadão comum diante de um dilema, que não é novo, mas cuja intensidade e sofisticação chegam agora a limites nunca alcançados. Em quem confiar?

Até agora alguns órgãos da imprensa, vários governantes e personalidades mundiais eram considerados fontes confiáveis e que tinham o dom de acalmar as nossas inseguranças e incertezas. Mas tudo isto mudou desde que a internet passou a fazer parte do nosso cotidiano. A avalanche informativa está quase nos soterrando com uma quantidade não administrável de versões diferentes sobre um mesmo fato, fruto da circulação online de percepções diversificadas. Este fenômeno veio para ficar e tende a se intensificar na medida em que aumentar o volume de dados digitalizados disponíveis em rede.

A imprensa e os políticos estão perdendo credibilidade porque os seus discursos tradicionais estão sendo subvertidos pelo surgimento de fatos contraditórios que circulam com frequência cada vez maior nas redes sociais, como Facebook, Twitter e outras. A crise no modelo de negócios da imprensa colocou-a diante da opção entre manter o discurso da imparcialidade e isenção responsáveis por sua credibilidade, ou deixar-se levar pelos interesses financeiros tentando sobreviver num clima econômico nada favorável. A lógica dos negócios acabou prevalecendo, como era inevitável, e o resultado foi uma drástica redução na qualidade dos conteúdos noticiosos, o que comprometeu gravemente a confiança do público.

Os cientistas, intelectuais e personalidades de renome mundial, que antes podiam usar o seu conhecimento e sabedoria para transmitir uma credibilidade mínima, hoje são forçados a lidar com um contexto informativo cada vez mais complexo. Alguns deles, acabam reconhecendo que não tem mais condições de distinguir o que é certo ou errado, como aconteceu com o recém-falecido sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o autor da teoria da modernidade líquida.

A confiança baseada em estatísticas
O público ainda reage de forma muito lenta diante de uma gradual contaminação pelo vírus da insegurança informativa. Isto acontece porque a incerteza e a dúvida são sensações desconfortáveis que tendem a ser minimizadas para as pessoas mantenham um mínimo equilíbrio comportamental e emocional. A confiança é um valor que toma algum tempo para ser alterado.

Como era previsível, quem primeiro reagiu à generalização da incerteza foram os protagonistas do comércio eletrônico porque a confiança dos compradores é essencial para o fechamento de uma venda. Foi neste ambiente que surgiram os sistemas de reputação 1, baseados no uso de algoritmos (softwares especializados) e no processamento de opiniões de usuários para estabelecer um índice e um ranking de credibilidade a partir de negócios realizados. Este sistema garante a sobrevivência de iniciativas como o site Mercado Livre e Ebay, considerados os mais bem-sucedidos sistemas colaborativos de gestão da credibilidade para fins comerciais.

O problema é que o usuário precisa ter noções mínimas de interpretação de estatísticas para poder saber porque um vendedor com 90% de recomendações de 10 mil compradores é mais confiável que outro vendedor que 100% de opiniões positivas, mas de apenas 500 clientes. Olhar apenas para os indicadores percentuais pode ser enganoso, num sistema onde nunca há certezas absolutas.

Na imprensa, os jornalistas apostaram no desenvolvimento de softwares e equipes para checagem de fatos, dados e eventos produzidos por políticos, empresários, ativistas e publicitários 2. É um fenômeno que ganhou corpo há pouco mais de dois anos e que pode ser eficiente, mas numa escala reduzida, já que exige muitos profissionais para programar algoritmos e checar pessoalmente um volume crescente de desinformação circulando na internet, principalmente nas redes sociais. O custo de um sistema de checagem na imprensa é muito alto e poucos veículos de comunicação tem condições de manter um serviço como este, sem uma forte segmentação e foco, o que reduz o alcance em matéria de público.

Mais recentemente começaram a se expandir projetos baseados em comunidades, onde as pessoas se reúnem para trocar opiniões e percepções sobre dados, fatos e eventos relacionados ao seu ambiente, suas necessidades, problemas e desejos. Trata-se de uma experiência mais humanizada e localizada, mas que depende da confiança mútua entre seus participantes para poder prosperar. É baseada na colaboração voluntária, o que elimina o problema financeiro, mas enfrenta a necessidade de um prolongado ajustamento entre os participantes.

A credibilidade com base social
Trata-se de uma nova função para as comunidades, um sistema de organização social tão antigo quanto a humanidade, mas que ganhou formas inéditas na era digital. As comunidades de informação preocupadas com a credibilidade de notícias são uma variante dos sistemas de curadoria de informações. A diferença está em que os sistemas de curadoria são centralizados num curador, enquanto as comunidades de informação são descentralizadas e tem no máximo um moderador. Cada membro tira as suas próprias conclusões com relação à confiabilidade das informações recebidas.

Para os pesquisadores finlandeses Nando Malmelin e Mikko Villi 3, as comunidades de informação são uma tendência natural no meio da desorientação gerada pela avalanche informativa, bem como, uma ferramenta estratégica, tanto para organizações sociais, como para imprensa. Já o norte-americano Gary Burnett, da universidade de Florida (Tallahassee) 4, acha que é impossível estabelecer fórmulas gerais para a formação e funcionamento de comunidades de informação por conta da diversidade de contextos informativos em que estão inseridas.

Mas eles coincidem em que, como no resto da internet, a tendência é, cada vez mais, buscar soluções no âmbito comunitário e colaborativo, um comportamento que contraria o individualismo predominante em nossas relações sociais. É quase certo que não haverá uma única ferramenta e que cada caso vai exigir uma combinação de soluções.

(1) Versão revista e atualizada de um texto publicado originalmente no site objETHOS em 16/1/2017. Nova atualização em 8/2/2017 atendendo a sugestões e críticas de leitores.

1Manifesto for the Reputation Society por Hassan Masum & Yi–Cheng Zhang. First Monday, Volume 9, Number 7–5 July 2004. http://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/viewArticle/1158/1078

2Projeto Credibilidade ( https://projetocredibilidade.org/) a versão brasileira do The Trust Project http://thetrustproject.org/ , um projeto de verificação de fatos na imprensa nacional.

3Ver detalhes em Audience Community as a Strategic Resource in Media Work. Disponível em http://dx.doi.org/10.1080/17512786.2015.1036903

4Detalhes em Information exchange in virtual communities: A Tipology. Information Research, Vol. 5 №4, July 2000 . Disponível em http://informationr.net/ir/5-4/paper82.html

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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