Como as “fake news” condicionam o futuro do jornalismo

Parece meio esdrúxula esta afirmação, mas se formos mergulhar um pouco mais fundo no atual redemoinho de opiniões e percepções sobre a veiculação de notícias falsas veremos que a inevitável desorientação do público vai acabar levando-o a recorrer aos jornalistas como uma espécie de curador no meio do caos informativo.

Mas isto só acontecerá caso editores, articulistas e repórteres revejam as suas relações com as empresas jornalísticas. A indústria de produção de jornais, revistas, audiovisuais e páginas noticiosas na Web está tendo que priorizar os seus interesses financeiros e políticos diante das dificuldades na transição para um modelo de negócios em ambiente digital.

A chegada da internet acabou com o mito da isenção informativa das grandes empresas jornalísticas porque elas estão tendo que optar entre atender interesses financeiros e políticos como condição para sobreviver na mudança de modelos, ou manter o discurso da independência noticiosa e correr o risco de desaparecer ou reduzir drasticamente seus negócios, frustrando investidores e acionistas.

Também não se pode esperar imparcialidade dos governos porque eles também estão pressionados pelas dificuldades políticas e financeiras geradas por mudanças estruturais e conjunturais na maior parte dos países do mundo ocidental. Tanto quanto as empresas, os governos têm seus interesses próprios e é claro moldam suas políticas de comunicação de acordo com as conveniências. Portanto não há como esperar que tanto os executivos como os políticos passem a priorizar as necessidades informativas de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

A cacofonia informativa

Além disso é preciso levar em conta o papel das redes sociais, apontadas como as grandes responsáveis pela cacofonia informativa e pelas “fake news” (notícias falsas) embora elas não sejam as únicas culpadas. As redes sociais são um fenômeno criado pela internet e cuja importância está no fato de terem permitido, pela primeira vez na história da humanidade, que o cidadão comum possa publicar o que pensa, sente e testemunha.

Mas os neófitos na nova arena globalizada da comunicação virtual tem escassa ou nenhuma experiência no trato da informação, um produto imaterial altamente complexo porque se dissemina vertiginosamente, se reproduz continuamente e é sempre o resultado de representações individuais.

A observação da interatividade em redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram e outras, mostra que elas são ótimas na amostragem de opiniões, reflexões e percepções, mas pouco confiáveis em matéria de checagem de dados e fatos duros.

De tudo o que foi dito, depreende-se que a desorientação informativa provocada pela manipulação de notícias é um fenômeno que veio para ficar, como um subproduto indesejável da era digital. E é aí que entra o papel do jornalismo como atividade preocupada em oferecer aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas fontes, documentos, dados e fatos mais confiáveis.

Trata-se de uma função sem a qual será impossível uma convivência social minimamente harmônica, porque a informação passa a condicionar cada vez mais as relações entre seres humanos. O jornalismo, que até agora tinha um discurso voltado para o interesse publico, mas cuja prática era dominada pela preocupação comercial e política, vive na era digital a possibilidade de reencontrar o seu espírito original por meio de um relacionamento direto com as audiências.

Quem pagará os salários?

Mas as novas perspectivas abertas ao jornalismo dependem do desenvolvimento de sistemas de sustentabilidade financeira e de governança social. Há uma busca mundial por modelos capazes de remunerar editores, repórteres, colunistas, programadores, designers e gestores participantes de iniciativas deste novo tipo de jornalismo. Há centenas de projetos e pesquisas em curso, mas até agora, a única coisa que se sabe, é que não haverá um modelo único, e que cada projeto terá que pesquisar na sua realidade, as soluções possíveis.

Também já se sabe que caberá aos jornalistas desenvolver o relacionamento com o seu público visando a formação de comunidades de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas onde a interatividade coletiva fornecerá tanto boa parte dos conteúdos informativos como também parte dos recursos financeiros. Mas esta busca de modelos específicos de sustentabilidade vai depender também dos procedimentos metodológicos desenvolvidos por pesquisadores acadêmicos e da experiência e expertise de gerentes administrativos e publicitários para descobrir como viabilizar economicamente este novo tipo de jornalismo.

A visão global de todos estes itens mostra que o fenômeno das fake news pode ser o gatilho de uma grande transformação no jornalismo, muito além dos modismos tecnológicos, do academicismo teórico e do corporativismo .

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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