Carne fraca revela fraquezas da nossa grande imprensa

Quase todos os problemas exibidos pela grande imprensa brasileira na cobertura da operação Lava Jato apareceram agora de forma muito mais clara e significativa no noticiário sobre a Carne Fraca. Folha, Globo e Estadão, bem como a TV Globo ficaram presos à blindagem do Ministro Blairo Maggi, à recuperação da imagem dos frigoríficos colocados sob suspeita pela trapalhada da Polícia Federal, que depois do impacto inicial sumiu do noticiário, junto com o Ministério Publico Federal.

Tanto a PF como o MPF do Paraná estão na origem de toda a confusão criada por informações mal divulgadas e que acabou tendo na economia a sua principal repercussão. O governo entrou com tudo na ofensiva para apagar um incêndio informativo e financeiro que ainda ameaça o nosso comércio exterior, os frigoríficos exportadores e milhares de trabalhadores espalhados por todo o país.

Na tentativa de salvar o ministro, tranquilizar importadores, proteger a Polícia Federal e o Ministério Público, a imprensa acabou se esquecendo do consumidor brasileiro que ainda não sabe se a carne que consome é fraca ou não, se os embutidos contém o que anunciam e se a fiscalização é confiável ou não. Foi uma grande oportunidade, que ainda pode ser aproveitada, para uma reaproximação com um público que está cada vez mais descrente na função social da imprensa.

A operação Carne Fraca teve, em sua origem, uma clara conotação política porque a Policia Federal e o Ministério Público Federal, pretendiam vincular os frigoríficos à propina e ao caixa 2 dos partidos PMDB e PP, o que inevitavelmente teria repercussões no governo Temer. Teria sido igualmente uma rara oportunidade para que o empenho investigativo demonstrado na Lava Jato pudesse ser materializado também no segmento da alimentação, o que traria benefícios imediatos para o cidadão comum. O consumo de carne e seus derivados afeta o cidadão comum de forma muito mais direta que a polêmica sobre Caixa 2 e as delações premiadas.

Mas a imprensa não passou nem perto desta preocupação com leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Deixou-se envolver pela preocupação com a publicidade dos frigoríficos, tentando não perder clientes e proteger o principal representante do agronegócio no ministério do presidente Michel Temer. Aliás, a Globo fez jus ao slogan do seu anúncio institucional Agro é Pop.

A imprensa e a fórmula da salsicha

Foi por água abaixo o discurso tradicional dos executivos e porta-vozes da grande imprensa colocando o segmento como um “cão de guarda” do interesse público, como um representante do cidadão comum diante da força dos governos. Se os jornais, revistas e telejornais tivessem uma preocupação genuína com os interesses do público teriam aproveitado a trapalhada inicial dos investigadores para realçar a preocupação com a qualidade dos produtos cárneos consumidos pela população. Não é de hoje que há suspeitas sobre os embutidos, que já viraram até piada internacional, como a da composição das salsichas.

A imprensa brasileira se omitiu no papel de agente fiscalizador do interesse publico para assumir-se, mais uma vez, como participante num jogo político financeiro, envolvendo governos, frigoríficos, agências exportadoras, lobbies partidários, policiais federais e magistrados. Ai a gente vê como o interesse econômico afeta os procedimentos jornalísticos e porque o público está deixando de confiar na imprensa.

A imprensa não consegue se libertar da tutela dos anunciantes, fato que está gerando um problema grave num futuro não muito distante. Esta subordinação pode ser considerada uma atitude burra porque é determinada pelo imediatismo financeiro. Caso se decidisse investigar, por exemplo, como é feita a fiscalização da carne e derivados tanto por funcionários do Ministério da Agricultura como pelos próprios frigoríficos, a imprensa fortaleceria a confiança do público no jornalismo, a garantia mais segura de que os anunciantes continuarão fiéis ao jornal, revista, radio ou TV.

A imprensa tem repórteres qualificados e experientes para investigar temas como este e os donos de veículos de comunicação precisam se convencer que a sobrevivência do seu negócio não está na cumplicidade com órgãos do governo ou com anunciantes, mas na relação de confiança do público, gerada a partir da prestação de serviços de informação. Isto é quase a repetição do óbvio ensinado nas escolas de jornalismo. Mas, infelizmente, a Carne Fraca mostrou como também é fraca a visão da imprensa sobre a sua função e principalmente sobre o seu futuro.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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