Brasil 2021: entre o desgoverno e a “pororoca social”

A gente não tinha uma ideia concreta do que significa a palavra desgoverno, mas infelizmente o elemento que se diz presidente da República fez com que testemunhássemos o que a expressão representa e especialmente o que nós estamos sofrendo pelas omissões e cabeçadas presidenciais.

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O desgoverno em meio à maior pandemia dos últimos dois séculos deixou os 230 milhões de brasileiros órfãos em matéria de liderança, no meio de um salve-se quem puder para sobreviver à doença, e sem condições de saber o que vai acontecer nos próximos meses. Estamos sem horizontes, desorientados, inseguros e assustados pela possibilidade de ficarmos contaminados pelo vírus.

O pior é que já tínhamos condições de saber o que nos aconteceria porque o ex-capitão, transformado em presidente, já tinha mostrado ao longo dos seus 25 anos como parlamentar federal em sete partidos que sempre priorizou os interesses do seu clã familiar sem dar a mínima para os desinformados eleitores que o colocaram na Câmara de Deputados. Foi um parlamentar omisso que inevitavelmente seria também um presidente omisso.

Nós brasileiros temos hoje o pior dos governos não porque tenha esta ou aquela ideologia, mas porque é um desgoverno. Não temos governo algum, o que é muito pior do que ter um governo de direita ou de esquerda. É uma tragédia porque temos um presidente que não tomou nenhuma medida para nos preparar para uma pandemia que ele, cinicamente, chamou de “gripezinha”. Mais trágico ainda, chamou de maricas (efeminados) aqueles que ignorando a estupidez presidencial resolveram usar máscaras e evitar aglomerações.

O capitão afronta o conceito de chefe de estado quando diariamente torna evidente que não tem a menor preocupação com a população do país. Para ele, política e a presidência são instrumentos para fazer negócios familiares e promover a milicianização do país. Um estadista teria um mínimo de preocupação com seus subordinados e não sairia para pescar no momento que os brasileiros não sabem quando, se e como serão vacinados contra a Covid 19.

Instinto de sobrevivência

Um desgoverno é um vácuo de liderança pública. Nós não elegemos um presidente para ele deixar o país à deriva e se preocupar apenas com negócios e interesses de seu clã familiar. Nós não pagamos impostos para eles serem gastos no cartão corporativo da presidência, sabe-se lá no quê e onde. Nós não vamos aguentar esta situação durante muito tempo. Bolsonaro já sabe disto, tanto que está criando a sua própria milícia para usar o terror contra aqueles que não suportam mais o desgoverno.

Nós não queremos mais confusão porque a pandemia já espalhou suficiente insegurança, desorientação e medo na população. Mas sem governo, vai ser inevitável, quase natural, que o instinto de sobrevivência acabe nos levando a buscar um governo que realmente se preocupe com a gente. O desgoverno está gerando uma reação de autopreservação das pessoas, porque não somos suicidas potenciais para assistir inertes o que estamos testemunhando neste final de ano.

Alguns já falam em pororoca social como uma metáfora para simbolizar uma inevitável reação coletiva de sobrevivência capaz de conduzir a uma troca de inquilinos no palácio do Planalto, numa espécie de versão tupiniquim da primavera árabe que abalou ditaduras no Oriente Médio. A pororoca, por representar uma reação dos desiludidos e desorientados, é mais tolerável do que o desgoverno, mas ela pode ter um custo alto por conta de um eventual terror miliciano da família Bolsonaro.

Uma alternativa possível seria uma pororoca segmentada onde grupos de cidadãos tratariam de reconstruir o governo nacional a partir de governos e iniciativas municipais. Pode ser uma utopia, mas depois que Bolsonaro acabou com o centralismo estatal ao implantar o desgoverno, reconstruir a governabilidade a partir da base municipal já não parece tão impossível assim. Melhor uma utopia do que um desgoverno.

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