As fake news no centro do debate entre o velho e o novo na internet

A polêmica mundial sobre o fenômeno das notícias falsas é mais uma das manifestações do confronto entre a velha e a nova realidade informativa em curso em quase todo o mundo. O que está em jogo é a capacidade de definir o que é falso ou verdadeiro e, com isto, criar um padrão universal de avaliação das nossas relações com outras pessoas e com o ambiente físico que nos cerca.

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Verdadeiro ou falso. Ilustração Pixabay

As novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs) provocaram uma avalancha de informações que ampliou exponencialmente o volume de dados, fatos e eventos divulgados pelos veículos de comunicação. Isto acabou aumentando muito a complexidade da tomada de decisão tanto por indivíduos como por organizações, empresas e governos.

As consequências da avalancha evidenciaram um grande contraste com a situação anterior à internet , quando era mais fácil distinguir informações confiáveis das não confiáveis porque o volume de dados disponíveis era limitado. Esta situação deu origem a leis e rotinas que agora entram em conflito com o surgimento de fenômenos como as notícias falsas, saturação informativa e desorientação noticiosa.

Neste contexto, as fake news ganharam um destaque especial porque elas, além de colocarem em questão normas e valores da era industrial/analógica, ameaçam a integridade do modelo de negócios da imprensa, baseado na troca de informações confiáveis por publicidade paga. Eliminar dúvidas sobre a credibilidade das notícias publicadas passou a ser uma questão de vida ou morte para os veículos jornalísticos de comunicação.

Por causa disto, em todo mundo surgiram mais de 120 projetos de checagem de dados, fatos e eventos desenvolvidos por indivíduos e equipes de organizações jornalísticas. É um esforço enorme para tentar tranquilizar leitores, ouvintes e telespectadores, mas sem garantias de êxito pleno. É que cada projeto de checagem, ao trabalhar com percepções da realidade inevitavelmente incorpora a cultura, experiências, visão de mundo e perspectivas de seus integrantes. Logo não se pode descartar prováveis divergências na análise de um mesmo evento, por exemplo.

Na Suécia, por exemplo, um grupo de fact checking chamado Mediekollen ganhou notoriedade por questionar a confiabilidade de outras iniciativas de verificação de autenticidade informativa. O grupo foi posteriormente identificado como de extrema direita e sua página foi retirada do Facebook. Governos como os dos Estados Unidos e Turquia passaram também a usar o rótulo fake news para tentar desacreditar informações contrárias aos seus interesses. Isto aumentou a confusão em torno da credibilidade noticiosa e levou o jornal inglês The Guardian a anunciar uma “guerra das fake news”.

A ideologização do fact checking

A manipulação da credibilidade em informações tende a deslocar a discussão das estratégias e métodos de verificação e certificação da confiabilidade noticiosa para a questão de quem tem o poder de definir o que é verdadeiro ou falso. É neste âmbito que o sociólogo italiano Alberto Melucci, autor do livro Challenging Codes (Questionando Códigos) afirma que estamos caminhando para uma ideologização do debate sobre a confiança nas informações.

Dada a dificuldade da maioria das pessoas em dispor dos elementos para considerar uma noticia como verdadeira ou falsa, a tendência será seguir a orientação de alguma personalidade ou instituição. Num ambiente de polarização ideológica como o verificado aqui no Brasil e em muitos outros países, é muito provável a formação de grupos antagônicos.

A questão da credibilidade caminha para transformar-se num divisor de águas entre o modelo analógico de gerenciamento das informações e o modelo digital caracterizado pela complexidade, fluidez e descentralização na produção, edição e divulgação de notícias. Como crescem os indícios de que o sistema dicotômico, predominante até agora, já não consegue mais dar respostas a fenômenos tipo fake news, teremos que nos acostumar a conviver com avaliações relativizadas, ou seja, que levem em conta a inevitabilidade de algum tipo de viés embutido numa informação. Trata-se de um novo hábito que tem vantagens e desvantagens.

A principal desvantagem é que ele nos obrigará a ter que pensar sobre cada fato, dado, evento ou ideia antes de incorporá-los ao nosso conhecimento pessoal ou de repassá-los a outras pessoas. É muito menos cômodo do que seguir automaticamente o que publica um jornal ou é mostrado num telejornal, mas em compensação reduz consideravelmente a possibilidade de confrontos entre quem assume uma notícia como verdadeira e os que acham que ela não é confiável.

Quando ambas as partes admitirem que têm uma capacidade limitada de determinar o que é certo e o que é errado, é natural que uma saiba coisas que a outra não sabe, e vice versa. Isto tende a nos tornar mais tolerantes em matéria de divergências sobre veracidade e confiabilidade de informações. Mas há um longo e complexo caminho até chegarmos a este nível.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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