Alfabetização informativa: uma receita contra o caos digital

A medida que incorporamos as novas tecnologias de informação e comunicação ao nosso dia a dia, descobrimos que não basta apenas saber usar um computador, tablet ou celular para ingressarmos na categoria de cidadão digital. Com o fenômeno das notícias falsas na internet, a convivência entre os usuários da rede passou a depender do grau de conhecimento sobre como manejar a informação, algo que, até agora, não preocupava ninguém e nem era considerado essencial para a convivência social.

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Ilustração Pixabay / CC

A alfabetização digital, digital literacy no jargão técnico anglo-saxão, era até bem pouco tempo atrás uma expressão usada para indicar que o indivíduo sabia usar um computador e conhecia programas básicos como editor de textos, de imagens, correio eletrônico, como acessar a internet ou como buscar dados na rede. Era também a preocupação central de especialistas em educação que defendem a capacitação de alunos do primeiro e segundo graus no uso de computadores e da internet.

Mas hoje, a alfabetização digital passou a englobar questões bem mais complexas como privacidade, assédio moral e sexual, discurso do ódio, preconceito e desinformação. O termo ganhou tanta importância que já é usado por pesquisadores e ativistas digitais como a tábua de salvação para evitar o caos, descontrole e beligerância no universo das redes sociais, o ambiente de relacionamento humano que mais cresce no planeta, pois já engloba quase 1/3 dos seres humanos.

Num contexto em que a comunicação interpessoal passou a ser global, instantânea e multimídia, é fácil perceber o efeito devastador da desinformação e das notícias falsas. Uma pelo jornal britânico The Guardian, agora em dezembro, mostrou que mais da metade dos ingleses com acesso à internet não verificam a credibilidade de notícias antes de compartilhá-las pelas redes sociais. No resto do mundo, este tipo de atitude é tão comum ou até mais frequente do que no Reino Unido.

Comportamentos como este tem origem na velha crença arraigada há décadas de que tudo o que a imprensa publica é verdadeiro e está acima de qualquer suspeita. Assim, a leitura de uma informação, mesmo publicada nas redes sociais ou blogs da internet, incorpora os hábitos de leitura de jornais, revistas e telejornais. Isto cria uma porta aberta para a difusão e até viralização de notícias falsas e desinformação (notícias parcialmente autênticas, mas usadas fora de seu contexto original).

A alfabetização digital pretende corrigir este problema que se tornar cada vez mais grave, mas isto requer uma mudança geral de comportamentos, normas e valores na veiculação de material jornalístico, coisa que inevitavelmente exigirá muito esforço e perseverança, principalmente de quem produz e publica notícias. Os procedimentos nas redações terão que se submeter à regra geral de verificação da veracidade, do contexto e da exatidão dos dados, coisa que pode retardar em muito a publicação de notícias.

Outro complicador na preocupação com a alfabetização informativa é que ela não pode ser uma responsabilidade apenas da imprensa e dos governos, entidades às quais a maioria dos leitores, segundo pesquisas realizadas em várias partes do mundo, atribui a responsabilidade pela certificação de credibilidade das notícias. Códigos, normas, leis e sanções ajudam, mas não podem garantir sozinhas que as chamadas “fake news” sejam eliminadas.

Ainda mais quando elas são divulgadas por quem, institucionalmente, deveria evitá-las, com aconteceu como presidente norte-americano Donald Trump, que numa entrevista concedida no dia 28 de dezembro do jornal The New York Times, mencionou “24 inverdades em 30 minutos de conversa” , feito pelo The Washington Post.

Não temos alternativa senão nós mesmos, leitores e usuários de redes sociais adotarmos a cautela como hábito rotineiro na hora de compartilhar dados, fatos e eventos pela internet. Sem a nossa reeducação informativa o fenômeno das “fake news” tende a se generalizar o que pode ser extremamente ameaçador para o convívio social.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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