A velha e a nova elite política do país ignoram a complexidade dos dilemas que temos pela frente

117 milhões de eleitores brasileiros expressaram nas urnas no dia 7 de outubro, um sentimento majoritário de insatisfação com o atual quadro político brasileiro, mas ao mesmo tempo criaram um gigantesco dilema para o país inteiro. O descontentamento deu origem a um processo de fragmentação e diversificação partidária que põe em evidência a complexidade do processo político no qual estamos ingressando agora.

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Complexidade Foto Pixabay / CC

Esta constatação mostra o brutal contraste com as soluções simplistas e dicotômicas propostas por todos os candidatos onde predominaram preocupações paternalistas (do tipo vamos vou criar milhões de empregos) ou messiânicas ( volta aos bons tempos), inclusive entre os novos políticos. As apurações mostraram que estamos diante de muitos desafios cuja solução depende de muita reflexão, debate e estudo mas a campanha eleitoral e as apurações mostraram a predominância de políticos que só sabem refletir e atuar na base do contra ou a afavor, eles ou nós, os bons e os maus, etc etc.

A maneira como age o universo político deste país indica que o brasileiro comum não terá alternativa senão, ele próprio, tomar a iniciativa de renovar também a forma como se pensa e faz política neste país. Não basta trocar de nomes ou siglas, pois a “bolha política” brasiliense torna muito difícil o surgimento de ideias novas, pois todos estão prioritariamente preocupados em manter ou conquistar fatias do poder executivo e legislativo.

A complexidade da situação na qual estamos metidos pode ser medida pelo fato de que raríssimos candidatos a nível federal, estadual e municipal trataram de forma direta os três principais dilemas com que o país se defronta: a questão ambiental, a desigualdade social e o problema do trabalho. Muitos falaram sobre clima, injustiças e desemprego, mas da forma paternalista ou messiânica. Nenhum deles disse que o nosso grande problema ambiental não é só o desmatamento amazônico, mas o quê fazer com a situação de nossas grandes cidades que estão se transformando em infernos ecológicos.

Ninguém situou a violência, corrupção e marginalidade como consequências da desigualdade social e econômica. Qualquer pessoa na rua sabe que é inviável colocar um policial em cada esquina, que leis mais duras só vão encher prisões que se transformaram em universidades do crime. Que a tentação da propina, sonegação, caixa 2 e outras práticas corruptas são uma decorrência da desigualdade na distribuição do dinheiro público. Não há corrupto sem corruptor, e ambos querem mais do que tem, porque outros têm mais do que eles.

E a questão do trabalho então é o ápice do irrealismo e pensamento retrógrado predominante em nossa elite governante. Qualquer pessoa que tenha lido algum artigo, livro ou reportagem na imprensa sabe que a automação está invadindo o setor produtivo e que não há perspectivas de volta ao sistema de emprego vigente na era industrial. Se há uma tendência inequívoca esta é a de substituição em massa do trabalho manual repetitivo por robôs eletrônicos comandados por algoritmos.

Esperanças impossíveis

É só ver o que aconteceu com os bancos no mundo inteiro. Eles demitiram milhões de funcionários, que foram substituídos por caixas eletrônicos, faturamento digital, dinheiro de plástico e fluxos financeiros eletrônicos em escala mundial e em tempo real. A era eletrônica permitiu aos bancos obter lucros obscenos numa realidade em que 99% da população mundial perdeu poder de compra nos últimos 30 anos. É inevitável que os demais setores produtivos (indústria, agronegócio e serviços ) caminhem na mesma direção, automatizando processos a medida em que forem desenvolvidos novos softwares e equipamentos eletrônicos.

Diante de um quadro como este é uma trágica ironia candidatos prometerem criar 10 milhões de novos empregos. É acenar com algo impossível. É enganar deliberadamente tanto o desempregado como o que tem trabalho. Nenhum candidato se preocupou em levar aos eleitores a discussão sobre o que fazer com os milhões de homens e mulheres que perderão seus empregos nos próximos anos. Não houve discussão porque este é um tema complexo, impossível de ser analisado a partir de visões simplistas tipo a favor ou contra.

Enquanto os dilemas que começamos a enfrentar nos remetem ao futuro, nossos dirigentes estão condicionados pelo passado. Quem acompanhou a propaganda eleitoral pela TV pode ver que todos se referiam a fatos, eventos e processos já ocorridos como padrão para solucionar os problemas atuais.

Os dois candidatos presidenciais que irão disputar o segundo turno são o exemplo claro desta situação. Bolsonaro encarna o retorno à velha obsessão autoritária pela lei e ordem, ignorando que transições sociais entre modelos econômicos são historicamente períodos de instabilidade porque implicam a quebra de paradigmas sociais, econômicos, culturais e políticos. Haddad acena com a volta aos dois períodos presidenciais de Lula como a chave para fazer o brasileiro feliz outra vez.

Os que identificam o Partido dos Trabalhadores com o comunismo têm na cabeça o regime vigente na antiga União Soviética, que deixou de existir em 1992. O comunismo chinês atual não tem nada a ver com o bolchevismo do século passado. Os que juram amor à democracia, não levam em conta que a liberdade deixou de existir para boa parte dos moradores da periferia de grandes cidades, cujo quotidiano passou a ser controlado pelas milícias e pelo narcotráfico.

O segundo turno

Bolsonaro e Haddad se tornaram a personificação do conjunto difuso de ideias e percepções que povoam o imaginário dos eleitores brasileiros, a maioria deles perplexos e divididos diante de uma realidade cada vez mais complexa. Antes, nós esperávamos que os políticos e especialistas encontrassem alternativas para os nossos dilemas. Mas a Lava Jato escancarou para todos nós como os políticos deixaram de ser confiáveis. Até a própria Lava Jato foi afetada pelo descrédito, junto com o sistema judiciário, por conta da cumplicidade no esforço para impedir a candidatura presidencial de Lula.

Quem espera que Bolsonaro consiga normalizar o país pode acabar frustrado, a exemplo do que aconteceu com os norte-americanos que elegeram Donald Trump. O candidato do PSL tem uma personalidade impulsiva, tendência ao autoritarismo e pouco preparo técnico, o que acabará por depender de assessores com interesses diversos, como já ocorre com o atual presidente dos Estados Unidos. Bolsonaro não está preparado para enfrentar a complexidade da situação que teremos pela frente.

Fernando Haddad, por sua formação acadêmica, poderia se arriscar a entrar na complicada discussão dos dilemas que nos afetam, mas ele teria que assumir uma posição autônoma dentro da estrutura partidária e questionar o “lulismo”, a ideia que tomou conta do PT e que não tem nada a ver com a ideologia original do partido. O candidato petista tem contra si um obstáculo quase intransponível, que é a maré conservadora do eleitorado, induzida pelo medo da nossa elite política e empresarial de enfrentar as incógnitas e a complexidade do futuro.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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