A Teoria da Prática na reinvenção do jornalismo (*)

A Teoria da Prática aplicada ao jornalismo ganhou um novo impulso depois do surgimento da pandemia do Coronavirus quando ficou claro que a atividade informativa precisaria acelerar o abandono de paradigmas convencionais para poder atender às novas demandas informativas criadas pela Covid -19 em todo o mundo.

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Pixabay / CC

A Teoria da Pratica, na definição da pesquisadora finlandesa Laura Ahva, é o conjunto de representações identificáveis, padronizáveis e personificáveis compostas por seres móveis, objetos manuseáveis, processos capazes de serem descritos e ambientes que podem ser entendidos. Numa definição mais simples, é uma forma de entender uma realidade desconhecida a partir da observação , codificação e categorização de dados, fatos e eventos registráveis num ambiente determinado.

O sociólogo inglês Nick Couldry defende a Teoria da Prática como um paradigma preocupado com a forma, objetivos e valores adotados pelas pessoas na relação com a mídia e menos com textos, imagens, declarações e instituições jornalísticas. “ O que as pessoas estão fazendo em relação à mídia num amplo espectro de situações e contextos?”, afirma no texto Theorizing Media as Practice (2004).

Até agora a maioria dos estudos sobre jornalismo se preocupava mais em analisar a realidade a partir de textos e documentos, centrados nas redações e nos negócios jornalísticos do que na realidade exterior a estes dois ambientes. O objetivo era achar soluções para problemas da profissão e das empresas mais do que identificar mudanças nos comportamentos, necessidades e aspirações dos indivíduos que compõem a audiência dos veículos de comunicação jornalística.

A prática como aventura teórica

A mais recente pandemia na longa sequência de mortandades a atingir a humanidade deflagrou uma serie de mudanças no modo de viver das pessoas, como é o caso do distanciamento social em plena era das aglomerações globalizadas. Como nas pandemias anteriores, a inexistência de vacinas e remédios transformou a informação no único antídoto eficaz para combater a contaminação generalizada.

As mudanças provocadas pela Covid-19 tornaram ainda mais intenso o processo transformador deflagrado pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), já no final do século passado. Isto acabou mostrando também a urgência do jornalismo encontrar um novo marco teórico capaz de orientar sua adequação à nova realidade informativa, marcada pelo esgotamento do modelo comercial na imprensa.

Em seu trabalho pioneiro na , Finlândia, Laura Ahva, entende a Teoria da Prática como um ponto de partida para a reinvenção do jornalismo com base na observação da prática em realidades especificas através de uma integração estreita com outras disciplinas, em especial etnografia e antropologia.

Para Nick Couldry, a Teoria da Prática tem a vantagem de ver o jornalismo da era digital como uma área desconhecida que é necessário explorar ao identificar seus componentes, origens, dinâmica e condicionantes. Ele recorre à princípios já desenvolvidos na etnografia e antropologia no sentido de rejeitar ideias pre-existentes para valorizar os dados, fatos, processos e eventos identificados através da observação distante ou participante.

As observações de Couldry fazem sentido porque o fato concreto é o de que o jornalismo, de maneira geral, entrou na era digital com base no erro e acerto, na falta de paradigmas previamente testados. São uma prova disto , o alto índice de mortalidade das chamadas “start ups” e o elevado índice de fracasso de projetos lançados por empresas como a Google.

O fato do jornalismo contemporâneo defrontar-se com uma realidade digital ainda desconhecida pela maioria dos profissionais confere à atividade características de mutabilidade e liquidez que apenas confirmam a necessidade de buscar novos paradigmas teóricos para orientar a pesquisa da realidade.

Uma “feira de teorias”

Na verdade a Teoria da Prática é uma família de teorias, ou na definição de Ahva, uma “feira de teorias”(trading zone) , uma espécie de ponto de encontro de várias propostas. Esta “família de teorias” é uma consequência direta do aumento da multi e interdisciplinaridade na investigação jornalística. Uma simples reportagem sobre um crime gera hoje um conjunto de abordagens etnográficas, antropológicas, psicológicas, sociológicas, jurídicas e econômicas, só para citar algumas áreas de conhecimento que integram o contexto do evento. O conjunto destas abordagens permite uma maior aproximação à essência do fato a ser noticiado. É esta interdisciplinaridade que está no coração da Teoria da Prática.

Outra característica marcante da “feira de teorias” é sua escalabilidade, ou seja, capacidade de utilização tanto no nível macro como no micro, e suas gradações intermediarias. A Teoria da Pratica pode servir de guia tanto para a pesquisa hiperlocal visando um sistema de informação num bairro ou rua, como na busca de paradigmas nacionais ou internacionais. Um paradigma teórico hiperlocal é um dado básico de realidade num contexto regional ou nacional.

Para se adequar à nova realidade informativa pós pandemia, a Teoria da Prática propõe que o jornalismo examine a prática de um ambiente específico tentando identificar os elementos que direcionam, inter-relacionam, condicionam e explicam ações de atores envolvidos no fato, dado, processo ou evento em observação. Neste ponto, a Teoria da Prática se inspira nos trabalhos de Bruno Latour, da mesma forma que a identificação das estruturas onde se desenvolve a pesquisa jornalística se apoia nas ideias de Antony Giddens, e o estudo do ambiente humano usa a obra de Pierre Bourdieu..

Referências:

COULDRY, Nick. Theorizing Media as Practice. Social Semiotics, vol. 14, numero 2, pag 115–132. DOI : 10.1080/1035033042000238295. 2004

AHVA, Laura. Practice Theory for Journalism Studies. Journalism Studies, DOI : 10.1080./1461670X.2016.1139464. 2016

(*) Texto publicado originalmente em .

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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